Tuesday, March 27, 2012

Protecionismo vs. Liberalismo



Não sem motivo, as reações do governo brasileiro ao capital estrangeiro sempre foram pouco balanceadas e, por que não dizê-las, excessivas.

Estivemos sempre sob a égide do protecionismo da economia nacional ou do liberalismo econômico e isto, por consequência, gerou resultados igualmente exagerados: um parque industrial pífio, produtor de bens de reduzida qualidade e baixo valor agregado, quase imune às exportações dos países ricos – quando sob a proteção do Estado –; ou uma indústria cambaleante e incapacitada de concorrer em condição de igualdade, em meio a um mercado inundado por produtos importados de preço atrativo e alto valor agregado – quando sob a permissividade neoliberal.

As respostas desmedidas do Estado sempre ocorreram motivadas pelo sentido de urgência de, de alguma forma, tutelar os interesses da indústria nacional, oprimida pela força do capital internacional, ou proteger os interesses dos cidadãos, de ter à sua disposição produtos de boa qualidade a preços razoáveis. Ocorre que o mecanismo, de estrangular a entrada de produtos importados ou de afrouxá-la, é temporário e não dá cabo do real problema: a ineficiência da indústria nacional.

Temos, sim, grandes indústrias a exemplo da Petrobras e Vale do Rio Doce, entretanto, seus produtos são, em resumo, commodities. Com raras exceções, não participam do rol de exportações do país produtos de alto beneficiamento e valor agregado. Isto é, em grande parte, resultado de uma conjuntura de inflação incontrolável, instabilidade social e política, concentração de renda, moeda desvalorizada, juros impagáveis e crédito restrito, sistema tributário de regras obscuras e elevada carga, infraestrutura deficitária, falta de mão-de-obra qualificada, ônus trabalhistas grandiosos, dentre outros variados elementos.

Durante os governos de Fernando Henrique Cardoso e Luís Inácio da Silva, o Brasil conseguiu, não sem dificuldades extraordinárias, mitigar alguns efeitos de sua ineficiência.

Em um instante inicial, o país adotou como moeda o Real e pôs em voga as regras e instrumentos que lhe permitiriam controlar a inflação. Ao mesmo tempo, adotou o regime de superávit primário que findou por permitir ao país amealhar suficientes recursos para manter a paridade da nova moeda ao dólar norte-americano, ainda que exigindo o sacrifício da indústria nacional àquele tempo.

A posteriori, o Brasil assentou os pilares dos programas sociais e de transferência de renda que terminaram por se expandir e fortalecer; desenvolveu relacionamento com mercados então considerados alternativos, sobretudo no continente Africano e Asiático, vide a China e países do Oriente Médio, ganhando relevância e locução internacional e limitando a sua dependência dos Estados Unidos; intercedeu diretamente na economia elevando o volume de concessão de crédito nas diversas classes e ensaiando reduções nas exorbitantes taxas de juros; deu poder, autonomia e liquidez aos bancos públicos e de fomento; criou programas de desenvolvimento nacionais e regionais e adotou medidas específicas para combater as consequências da crise que assola o mundo.

Mesmo com estes inúmeros e inegáveis avanços, o país carece de meios para competir com países mais ou igualmente ricos. A consequência direta e imediata disto é que, com o aumento da capacidade de consumo da população – vide o ingresso de mais de cinquenta milhões de cidadãos na classe média –, a balança comercial brasileira mostra sinais de estresse com a verdadeira invasão de bens importados.

O mercado de consumo brasileiro, todavia, cresce a olhos vistos e exige um incremento na oferta de produtos com bom padrão de qualidade e adequado preço, a demanda é essencialmente por bens com alto valor agregado tais quais veículos automotores, equipamentos eletroeletrônicos e uma imensa gama de itens.

A conjuntura, novamente, não favorece o Brasil, mormente pela condição supervalorizada da moeda que propele as importações e constrange as exportações e, naturalmente, pelo ambiente pouco propício e competitivo.

Em resposta, o governo da presidente Dilma Rousseff, como fora feito por outros governos em ocasiões semelhantes, assume postura evidentemente protecionista, exigindo grau mínimo de nacionalização de empresas atuantes no país beneficiadas por regimes de tributação diferenciada ou participantes de licitações públicas; sobretaxando produtos importados, a ver o aumento de Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI) para automóveis importados; impondo um aumento do Imposto sobre Operações Financeiras (IOF) no intento de limitar o influxo de capital especulativo; e outras tantas medidas que vêm sendo rechaçadas oficialmente perante Organização Mundial do Comércio (OMC) e oficiosamente na imprensa internacional.

Algumas circunstâncias deste cenário, contudo, convidam a uma análise mais minuciosa.

Não sem repercussão, em tempos outros, o Brasil adotou medidas igualmente duras. O alvoroço, no entanto, não ocupou naquelas ocasiões as primeiras páginas dos principais veículos de mídia estrangeiros, como agora ocorre. É que, com a crise econômica mundial que corrói as economias mais ricas do planeta e o pouco antecipado crescimento dos chamados países do BRIC (sigla que faz alusão ao bloco de países compostos por Brasil, Rússia, Índia e China) e outros mercados emergentes (outrora intitulados de nações de terceiro mundo), estes países tradicionalmente de pequena relevância passaram a ser vistos como parte da solução daqueles outrora mais abastados, dado o seu agora vasto poder de consumo. Arraigados à sua visão imperialista e apegados ao simulacro de poder de quem deteve a quase totalidade de riquezas do globo, estas nações agora às voltas com o alto endividamento público, ineficiência da administração pública, população envelhecida e, por consequência, insustentáveis custos de previdência, exercem o seu direito de espernear.


Algo que também invoca reflexão é que, em oposição às ações de outros governos, o da atual presidente busca soluções para conferir ferramentas ao empresariado nacional para crescer e ganhar competitividade. Partindo pela paulatina redução na taxa de juros, seja pela manutenção da SELIC em níveis historicamente baixos ou pela atuação dos bancos públicos, chegando ao chamado “pacote de bondades” a que tem se referido a mídia nacional sobre o conjunto de medidas que pretende adotar o governo federal, incluindo a reforma tributária, desoneração da folha de pagamento, flexibilização das leis trabalhistas, abertura e ampliação de linhas de crédito produtivas e outras benesses, o atual governo exibe, ao menos na retórica, maior compromisso do que os anteriores com a vitalidade da economia nacional.

É imperativo para o país que a equipe de Dilma Rousseff mantenha como objetivo primário reduzir as ineficiências da indústria nacional e o consequente custo-Brasil. Outrossim, há de se notar que a excessiva proteção pode redundar em acomodação e, como ocorreu em passado recente, livre das pressões de mercados mais desenvolvidos a indústria nacional deixou de modernizar-se e oferecia (como ainda o faz, em menor escala) produtos de baixa qualidade a preços superestimados. Da mesma forma, não se pode transferir ao consumidor os custos deste imbróglio. Concomitantemente, é preciso enxergar que, a despeito de sua bancarrota, os Estados Unidos e Europa são mercados vitais e detém grande poderio político econômico, portanto a acuidade na dosimetria das medidas deve ser a maior possível.

O equilíbrio é fundamental nesta dinâmica equação, cujo produto resta por ser definido. Se for meticuloso, o Brasil poderá em um único ato estimular sua economia, promover as melhorias estruturais necessárias e proteger sua indústria das atuais pressões econômicas internacionais, ao mesmo tempo em que poderá beneficiar os consumidores com produtos de qualidade e preços mais justos.


Sunday, March 04, 2012

Veni, vidi, vici.


Um tanto tardiamente, confesso, assisti o documentário sobre a vida do piloto de Fórmula 1, Ayrton Senna. Em pouco mais de noventa minutos, a obra tenta, com algum louvor, mostrar a vida deste grande esportista.

A película me comoveu diversas vezes, entretanto não foi o seu apelo emotivo que capturou a minha atenção. Na verdade, o subtexto é que me convidou à reflexão. É que o filme, à seu modo, responde uma pergunta que as pessoas se fazem a todo o tempo: o que é sucesso e o que conduz alguém alcança-lo?

É certo que aqueles que obtêm bom resultado em suas atividades trilham caminhos diversos e têm características distintas uns dos outros. Não há uma fórmula precisa a ser seguida, entretanto, alguns traços – observo –, parecem ser comuns a todos.

Ayrton Senna foi uma pessoa de muitas qualidades, umas positivas e outras nem tanto, mas lhe sobrou um componente vital: foco.

Desde o início de sua curta carreira, encerrada brevemente por uma fatalidade, o tricampeão mundial traçou objetivos claros e, não sem questioná-los, manteve-se fiel a eles por todo o período em que esteve no esporte. O seu afinco e determinação em torno destas metas foram determinantes para que chegasse ao posto almejado.

Criado em berço de ouro, a vida presenteou Ayrton com oportunidades ímpares e possivelmente outro menos favorecido não poderia gozar de iguais chances, mas não foi o contexto que o definiu e, sim, o contrário.

Mesmo dentro de um ambiente – diga-se, privilegiado – Senna teve de superar grandes adversidades e galgar seu espaço. Além de ultrapassar as barreiras da acirrada competição de seu esporte, teve ainda de suportar as pressões da política interna que a Fórmula 1 comporta.

Seu foco jamais foi a vitória pela vitória. Foi o de superar seus limites, dar mais e o melhor de si. Quando tiraram-lhe injustamente o título mundial, Ayrton enfureceu-se mas não se sentiu menor. Ao contrário, sua frustração o propeliu a tornar-se campeão no ano seguinte, aplicando sobre seu adversário a mesma artimanha que lhe tirara o campeonato anterior. Senna sagrou-se campeão, mas era latente o conflito interno entre ganhar sorrateiramente e como, de fato, desejava. Perder sempre lhe desagradou e vencer era a coroação de seus esforços, mas o tricampeão refutava os atalhos.

A definição de sucesso é relativa e não é somente a vitória que a avaliza. Importa o caminho. Outros de menor notoriedade, disse o próprio campeão, marcaram-lhe mais a vida do que grandes como Alain Prost e Nigel Mansell. É o caso de Terry Fullerton, bem-sucedido de história própria, com quem Senna competia em seus tempos de kart, e por quem o piloto nutria respeito e admiração, além de tê-lo declarado o seu mais duro oponente.

Sucesso é, por definição, lograr êxito mas os critérios distam de uma pessoa para outra. Só se chega a um dado resultado pretendido aplicando-se. É preciso resiliência, persistência, valores firmes e, sobretudo, foco. O sucesso não é dependente do reconhecimento alheio.

Nobres e bem-sucedidos, penso eu, são aqueles que perseguem o caminho mais do que o próprio destino. A estes, como para Ayrton, o sucesso é uma consequência.



Thursday, February 09, 2012

O mau uso das redes sociais.

Tenho me incomodado bastante com o conteúdo que circula nas redes sociais. Na verdade, não me apoquentam tanto as temáticas, mas as posições comumente externadas.

Com o advento da internet e, principalmente, das redes sociais, a dinâmica da informação mudou. Outrora unidirecional e concentrada, o conhecimento é agora multidirecional e difuso. A rede mundial de computadores democratizou a informação, permitindo que os indivíduos interajam uns com os outros e, além de recipientes do saber, produzam-no concomitantemente.

Ainda que os efeitos daí advindos sejam majoritariamente positivos, há que se considerar os possíveis malgrados. Uma grande questão que identifico diz respeito à qualidade da informação. Tenho que uma parte significativa de todo conteúdo produzido é rasa, não está contextualizada, tampouco é acurada.  Na internet aborda-se uma infinidade de assuntos sem que se lhes exija o devido cuidado.

Religião e política são assuntos naturalmente controversos e não é somente a eles que me refiro. Falo sobretudo de generalidades que são abordadas com o que tomo por leviandade.

Incluo aí os recorrentes comentários que, imbuídos de superficialidade, são livres de qualquer relevância ou valor, tais quais os malfadados comentários sobre os mais novos ex-futuros famosos, das mais forçosas polêmicas novelísticas, dos mais recentes carnavais populares ou quaisquer retoques sobre os expoentes da ininterrupta política de pão e circo brasileira.

Mais ainda, aludo às randômicas frases de efeito que portam valores individuais e pessoais transvestidas de citações autorais nada fidedignas. Ou mesmo as insinuações que de tão óbvias não dignam o esforço da dissimulação. Os idiossincráticos protestos, desacompanhados de ação. As cruas, trágicas e nada edificantes mensagens e imagens. As incoerentes dicotomias que olvidam da multiplicidade de vieses. Os impropérios.

Ego inflado, crítica exacerbada, dentre outros possíveis motivos, me é difícil reconhecer neste mundo digital algum mote ao qual me filie. Primeiro por que acredito que a falta de assertividade e lógica na grande maioria das colocações desconstitui qualquer argumento remotamente válido levantado. Em segundo plano, igualmente relevante, porque grande parte do que vejo exposto e circulado é mera repetição de conteúdo alheio sem que, contudo, se processe a informação. Numa terceira instância, porque quase não é possível travar um debate inteligente sem involuntariamente aderir a um estereótipo, ou ser enquadrado em um.

É possível – e até provável – que eu não haja compreendido o real propósito das redes sociais. Julgo que seu objetivo é o de permitir, encorajar e promover interações humanas em um ambiente imaterial, virtual. Assim sendo e considerando que os intercâmbios entre pessoas nem sempre é nobre, ou mesmo sério, nada mais natural do que as despretensiosas infâmias e impropriedades. Talvez não devesse dirigir minha perplexidade ao mau uso das redes sociais, mas da deterioração do homem que, ocupado com pequenezas, esquece-se do enorme potencial que a rede de computadores põe a seu dispor.

Diante da minha inabilidade de registrar os meus aparentemente ininteligíveis comentários nestas redes sociais, disponho da única ação que me resta – limitar as interações àqueles que se propõem a integrar o ambiente de engajamento a que as redes sociais verdadeiramente servem.

Reconheço, no entanto, que esta postura é indesejável e menos inteligente do que parece. Esperto é reconhecer valor inclusive nas menores e mais diferentes expressões. Quanto mais amplo o espectro de informações a que se tem acesso, mais complexa a ideia que se pode formar e os valores que se aduzem.

Admito ter uma tendência a deferir como menor tudo aquilo que é diferente das minhas convicções ou que foge a minha compreensão e não é sem esforço que tento refutá-la, mas para aceitar as disparidades preciso compreendê-las e se, eventualmente, o emitente de uma opinião ou detentor de um valor oposto ao meu não consegue construir um raciocínio fundamentado é difícil aderir ao seu ponto de vista ou depreender daí qualquer valor.

Um grande problema das redes sociais é que, com a possibilidade de comunicação rápida, a informação tornou-se igualmente veloz e, por conseguinte, desacompanhada de estrutura e volume.

Me acalenta imaginar, entretanto, que esta fase de informação rasa é consequência da democratização da informação, outrora restrita a um limitado número de autointitulados eruditos. Com o tempo, espero, teremos um uso mais responsável e inteligente destes novos veículos da informação.



Wednesday, November 09, 2011

A elite brasileira.

Nos últimos 16 anos houve melhoras sensíveis na realidade do brasileiro médio. Com a criação de programas sociais e de redistribuição de renda, investimentos maiores em infra-estrutura e o fortalecimento do consumo interno, o Brasil foi capaz de dar um salto qualitativo sem, contudo, livrar-se dos problemas que o afligem.

Ao estudar o nosso país, mesmo consideradas as recentes melhorias, detectamos sempre as mesmas problemáticas: a quase falência, incompetência e incapacidade de gestão do poder público, que se refletem diretamente na saúde e educação; o falido sistema político e corrupção escorchante; infra-estrutura ultrapassada, subdimensionada e desatualizada; programas sociais que não são acompanhados por condições reais de inserção nos mercados de trabalho, pela ausência de instrumentos de educação e capacitação técnica e profissional; o ineficaz e oneroso sistema tributário, que produz grandes distorções e limita a competitividade nacional; a crescente violência urbana dentre várias outras.

Nada disto é novo. O que impressiona é que, indagado, um brasileiro médio irá responder que a causa disto tudo reside em uma de duas coisas ou em ambas: falta de educação e corrupção. A lógica é que a má qualidade da educação nacional não dá aos cidadãos brasileiros conhecimento e discernimento suficientes para escolher seus dirigentes. Daí, a despeito do processo político-eleitoral existente, e como resultado da ignorância nacional, a classe política seria formada pelo voto do populacho, em troca de benesses menores. Esta mesma classe política não teria, portanto, interesse no avanço educacional do país e estaria aí instaurado um ciclo vicioso e sem fim.

A existência deste ciclo é inegável e irrefutável. Não obstante, o senso comum não explica algumas distorções nas linhas-mestre deste raciocínio. Nos municípios do país não se detecta necessariamente a redução da corrupção onde os índices educacionais são melhores. O que não se revela é que o poder de crítica trazido pela melhor educação não redunda obrigatoriamente em ação.

O povo brasileiro, especialmente sua parcela mais educada, é passivo e, ao contrário de alguns de seus pares na América Latina, tal qual o Chile e a Argentina, nada demanda dos seus governantes. Nada de relevante, ao menos.

O brasileiro é capaz de submeter a anos de opressão, sem promover uma marcha ou protesto, décadas de concentração de renda e falta de trabalho e emprego, longos períodos de hiperinflação, sistema de saúde e educação falidos e... nada. Ou melhor, os alunos da Universidade de São Paulo (USP) parecem ter encontrado algo pelo que se revoltar.

Recentemente, após um assassinato no campus da universidade, a pedido dos próprios estudantes, a reitoria reforçou a segurança com a presença da polícia militar (PM). Em cumprimento de seus deveres e atribuições, a PM passou a coibir o uso de drogas dentre outras condutas. As recorrentes rusgas entre policiais e estudantes  foram suficientes para provocar os estudantes e fazê-los ocupar a sede da reitoria da universidade.

Tantas são as mazelas do país e essa parte da população privilegiada, a dita "nata" intelectual do Brasil escolhe uma bandeira: o livre uso de drogas no campus. A inversão de valores é tamanha, que choca até os mais liberais.

Dizem os estudantes que o uso de drogas não produz mal algum a ninguém, exceto a eles próprios. Surpreende que estes cidadãos pensem assim tão limitadamente, especialmente quando representam a elite  literada da nação.

A despeito dos efeitos negativos em seu uso continuado, poucos argumentam que o uso da maconha seja mais prejudicial que, por exemplo, o consumo de álcool. Há uma extensa discussão que debate a hipocrisia e arbitrariedade de se liberar o consumo de uma droga como o álcool ou mesmo do cigarro de tabaco e coibir o uso da maconha. Não obstante não fazer uso de qualquer droga ilegal, sou partidário da liberação da comercialização e do uso da maconha pelo simples fato de crer que a legalização desta droga traria mais benefícios que malefícios, principalmente considerando a supressão de parte significativa da renda de quem a comercializa, os traficantes.

E é justamente isto que olvidam os nobres estudantes da USP. De fato, no que concerne o usuário, a maconha não produz maiores resultados. No entanto, pela sua ilegalidade e a existência de todo um sistema que sobrevive também do seu consumo, a maconha produz efeitos nefastos para a população - são estes recursos financeiros responsáveis pelo armamento das milícias e do chamado "poder paralelo" e, consequentemente, da violência. As "brilhantes" mentes destes estudantes parecem não ser capazes de processar o completo ciclo que se inicia com o consumo de drogas ilegais.

Estes que não temo chamar de moleques mimados indignam-se pelo cerceamento de suas "liberdades". Esquecem-se, novamente, de que viver em sociedade é aderir ao contrato social. É respeitar a norma imposta em benefício do todo coletivo e não de si próprio.

Apoio incondicionadamente a recente "marcha da maconha". Aquele ato, então promovido para pedir a liberação do uso e comercialização da maconha é uma demonstração pública e uma forma pacífica de se exercer cidadania. A ocupação da sede da reitoria da USP, todavia, não é nada senão uma grande afronta.

Me felicita que a aplicação da lei e atuação da polícia estão sendo céleres e exemplares. Me pergunto, contudo, onde estão os pais e mães destes estudantes. Salvo melhor juízo, a grande maioria ainda vive das posses de seus responsáveis. Se estes não são capazes de invocar de seus filhos responsabilidade e seriedade, creio que mais uma instituição do país se quebrou: a família.

Saturday, November 05, 2011

Manifesto em prol do empreendedorismo.

Por décadas o Brasil viu sua economia sucumbir e minguar diante da hiperinflação, corrupção, desgoverno, desemprego, falta de investimento em infraestrutura, pouca ou nenhuma oferta de crédito dentre diversos outros malgrados.

Durante este período, o brasileiro teve de ser inventivo e desdobrar-se para subsistir, o que produziu um efeito direto sobre o país, sobretudo para empreendedores. Daí a recorrente assertiva de que o Brasil é o país do empreendedorismo. Esta afirmação é ainda reforçada pelo fato de que, à época - e isto persiste hodiernamente -, uma parte significativa dos empregos gerados no país (pouco mais de 60%) resultavam de pequenas e difusas organizações empresariais e não de grandes conglomerados econômicos.

É notória a flexibilidade e capacidade de adaptação de uma grande parte destes profissionais brasileiros, os empreendedores. Não obstante, refuto o argumento de que estes tempos difíceis produziram um país de profissionais distintos e aptos a empreender. Ao contrário, defendo que a instabilidade e inconstância dos mercados e do país como um todo reforçaram as burocracias e criaram um sem número de tecnocratas.

Não me é desapercebida a competitividade que o empreendedor brasileiro médio opõe aos seus pares oriundos de outras partes do globo. Tampouco olvido a sua grande relevância econômica. Ratifico a noção de que o Brasil possui empresas e empresários extremamente preparados e capazes. Entretanto, creio que estes formam um grupo reduzido de indivíduos, em detrimento de uma massa de parca proatividade.

Ocorre que uma larga parcela dos brasileiros reitera o pensamento de que o sucesso empresarial, especialmente quando ostensivamente representado no acúmulo de riquezas, é advindo de qualquer outro elemento que não aqueles que realmente o produzem: preparo, trabalho árduo e resiliência. Parecem equiparar o ente privado ao público e vislumbram qualquer evolução patrimonial, ainda que singela, como objeto de alguma prática ilícita ou obscura.

Em tempos de bonança, cresce a economia e, bem assim, prosperam os negócios (ou assim se espera). É então que ladeiam-se burocratas e tecnocratas para rechaçar o empreendedor. Despropositadamente, vêem-se estes, nestes tempos, como paladinos dos limites morais e éticos do capital.

Em verdade, reputo esta, que julgo pobre e errônea, avaliação às próprias limitações que este grupo de pessoas se impõe. Por vezes são gente altamente graduada e especializada cuja falta de arrojo aponta para um caminho que não privilegia o risco. Esquecem-se de que na via oposta, pode-se perder tudo, principalmente em um país que condena ao ostracismo eterno aqueles que fracassam.

O fato é que nenhum indício parece suportar a argumentação de que o Brasil é o país do empreendedorismo. O brasileiro médio parece estar pronto para invejar o resultado do empreendedorismo, quando positivo, mas não quer suportar a sua via crucis

Ao contrário do que se passa em países prósperos, que exibem grande apoio e reverência às atividades de sua classe empresária e seu sucesso, o Brasil cria barreiras burocráticas, não dispõe de políticas de fomento, limita o crédito, tributa em excesso, onera as contratações de mão-de-obra e acaba por transferir o custo de sua ineficiência para aqueles responsáveis pela maior parte da economia nacional.

Penso que é digno de salvas este corpo de desbravadores e por que não dizê-los heróis. Mais, os empreendedores brasileiros são merecedores de respeito e atenção e não lhes é justo aviltar seu trabalho e sucesso.






Wednesday, September 21, 2011

Republiqueta.

Transparece a quem é de bom senso, o zelo que o governo brasileiro tem tido com os indicadores macroeconômicos nacionais. A preocupação é, além de sinalizar para os mercados interno e externo quão responsável é o atual governo com as suas contas, fortalecer a economia e seus substratos perenizando ou ao menos prolongando o cenário positivo que o país tem ostentado.

Séries de ações foram tomadas para conter o ingresso de divisas no país, com o claro intuito de fazer notar que o Brasil não deseja se manter na rota dos capitais especulativos que tanto chacoalham os mercados mundo à fora. Ao contrário, o Brasil busca se exibir celeiro para investimentos sustentáveis e duradouros.

Em tempos outros, governantes se arvorariam para trazer ao país tantos recursos financeiros quantos fossem possíveis, sem observar as cautelas necessárias e os possíveis malgrados que aí poderiam se originar. 

É possível, portanto, notar uma melhora consistente na forma como paulatinamente os interesses públicos tem ganho relevância sobre os interesses políticos, ainda que isto não tenha elidido os continuados desfalques ao Erário. Ocorre que, ainda que alguns gestos denotem o enorme potencial que o país tem e quão maior pode vir a ser, algumas pequenezas reafirmam a condição de republiqueta a que o Brasil parece estar condicionado.

Recentemente, sob as pressões de algumas das grandes companhias automobilísticas estabelecidas no país, especialmente Fiat, Volkswagen, Ford e General Motors, o governo federal impôs barreiras tributárias aos seus concorrentes estrangeiros. Diz-se, outrossim, que esta sobretaxa também almejou reduzir o incremento no volume de importações.

Alegadamente, a indústria nacional estaria enfraquecida e combalida pelo chamado custo-Brasil e pela competição dita desleal praticada pelos sul-coreanos e chineses. Assim, em defesa destas multi-nacionais estabelecidas no país já há 60 anos, com amplo acesso a linhas de crédito para aumento das linhas de produção e modernização, cujos braços brasileiros contribuem com na ordem de 15% a 25% de seus lucros mundiais, impuseram-se sobretaxas de até 30% para empresas como Kia, Hyundai, JAC Motors e outras. O objetivo e resultado desejados são claros, o acréscimo no valor dos carros importados e a blindagem da indústria nacional.

A medida não mereceria grande crítica se não fossem os consumidores brasileiros os mais prejudicados. Em um momento que a mídia nacional ensaiava, mesmo que timidamente, questionar os verdadeiros motivos dos altos preços dos carros aqui comercializados, talvez motivada pela entrada de carros de melhor qualidade e preços extremamente competitivos, esta ação governamental dá margem e guarida às práticas comerciais de sempre.

Ainda pior são as injustificáveis exposições de motivos que partiram do governo federal. Quando contrastadas com as miudezas da norma imposta, quaisquer tentativas de elucidar a matéria cristalizam-se vãs.

Esta suposta tentativa de tutelar a indústria nacional da competição desleal e da possível tomada de empregos de brasileiros, como conseqüência, curiosamente excluiu veículos vindos da Argentina e México da sobretaxa. Curioso porque as grandes do mercado automobilísticos tem em sua frota atual e nos seus planos de expansão veículos oriundos destes dois países. Mais curioso porque o governo brasileiro parece não se importar com o déficit da balança comercial quanto a essas duas nações, mas somente no que concerne às demais.

Quanto ao consumidor, a indústria nacional afirmou que ainda não tem planos para reajustar os preços praticados. Ainda. Contraditório é um governo que afirma lutar para controlar a inflação, não ter antecipado que tamanha proteção fosse, eventualmente, redundar num acréscimo nos preços.

Em um momento extremamente positivo em que a competição e o livre mercado beneficiavam o consumidor, a não interferência do Estado era essencial para a manutenção do ambiente economicamente saudável.

Agora, o recado enviado é o pior possível, inclusive para investidores não especuladores e em diferentes mercados. Indústrias como a Hyundai, Kia e JAC Motors, para citar algumas, haviam anunciado investimentos vultosos no país. Números capazes de gerar milhares de empregos, fortalecer a indústria nacional, fomentar a competição e saldar o consumidor. Hoje, pairam dúvidas sobre a efetivação de muitos desses aportes.

Mais. A intromissão do Estado na economia certamente irá levar a uma demanda na Organização Mundial do Comércio (OMC), já que aos países somente é dado elevar barreiras alfandegárias para proteção de seus mercados internos. O Brasil, entretanto, alterou a tributação e criou regime distinto para alcançar a meta pretendida, já que já se chegou aos limites das taxas alfandegárias (60%).

O que não se compreende é: será que o Brasil, além de não querer capital especulativo, também quer limitar o capital produtivo? Se não é isso, por quanto tempo continuaremos sujeitos aos ímpetos da força política, mesmo quando esta se embate com interesses maiores?





Tuesday, August 09, 2011

Aracaju não é mais como era...

Aracaju sempre foi modelo de cidade organizada e segura dentro dos padrões brasileiros. Todavia, já há algum tempo, esta máxima tem sido posta à prova. São os incômodos congestionamentos de trânsito, o combalido sistema educacional, o falido sistema de saúde e a crescente violência os principais desafiadores da tão aludida qualidade de vida, mas a administração pública já dá mostras de sua incapacidade gerencial também em outras frentes.

Há de se dizer que, conquanto complexa, a gestão de uma cidade como Aracaju não é das mais difíceis. Uma cidade que ainda não ultrapassa os 600 mil habitantes, tem uma área geográfica bastante reduzida e conta com um pesado efetivo de funcionários públicos poderia certamente oferecer melhores serviços públicos à sua população.

Uma parte do problema reside numa característica intrínseca a maior parte dos aracajuanos: sua resignação. São alheios às causas que lhes afetam direta e indiretamente. É de se questionar se tamanha indiferença resulta de sua incapacidade de percepção ou se é a grande dependência política o malfeitor. A maior parte, não obstante, está concentrada em um Estado despreparado, descomprometido e enfraquecido por disputas de poder.

Aracaju deve aprender com cidades maiores, em estágios de crescimento urbano mais avançados, que um descontrole agora significará um futuro incerto - para dizer o mínimo. Vejamos o preço que pagam hoje as grandes capitais do país, por seu passado.

É preciso reunir todos os setores da sociedade civil em torno de uma ampla discussão do que queremos para Aracaju nos próximos anos, com metas e ações concretas que possam ser medidas e acompanhadas de perto pela população.

Novas forças políticas precisam surgir e substituir os exultantes governantes e administradores públicos que aí estão. É preciso arrojo. A classe política mantém um discurso de que o Estado não possui suficientes recursos para saldar a enormidade de problemas existentes, o que é em parte verdade. No entanto, a abertura do debate com a sociedade poderia resultar em soluções menos custosas e mais eficientes.

Havendo a iniciativa, a aderência é certa. Assim, Aracaju pode conseguir manter a qualidade de vida e ainda agregar outros títulos.