O Brasileiro tem convivido com o caos já há muito. A corrupção e a impunidade nos conduziram e nos conduzem a um estado de urgência em que não há segurança pública, saúde pública ou educação pública. Em verdade, nenhum dos serviços públicos servientes à sociedade guarda qualquer relação com critérios de eficiência.
Principalmente nas grandes capitais, a sensação de abandono é notável no dia-a-dia. A violência nas ruas, a superlotação dos hospitais, a insubsistente estrutura educacional.
Aquilo que o Governo Federal tem por políticas sociais, são puramente atos emergenciais que buscam impedir o desmantelo completo das castas menos privilegiadas (leia-se a maior parte da população). E mais. Funcionam como meio de manobra de massas, o bom e velho voto de cabresto.
A infecção da corrupção espalha-se pelos meandros dos três poderes sem que qualquer investida lhes seja contraposta. As ações policiais resultam nulas, sem qualquer repercussão real para os malfeitores.
Aquele povo conhecido por sempre guardar um sorriso imaculado tem tido a sua resiliência ao fracasso vencida paulatinamente. O pior é que nada se vê fazer. A inconcretude das políticas sociais, o desatino das autoridades públicas; o descaso. Isso, sim, se identifica com muita clareza.
Diz-se que a economia da nação se expande exponencialmente, que os juros caem regularmente, que a inflação decresce, que a oferta de crédito aumenta, todavia nos deparamos com o mesmo malgrado de que sempre fomos acometidos. Não há divisão de renda. Nunca o Brasil contemplou tantos milionários e bilionários dentro a suas fronteiras, assim como nunca consternou tantos com a miséria e ostracismo sociais.
Estamos em insofismável condição de putrefação, como sociedade e como nação. Mas há, sim, solução. Piegas, mas há.
A pieguice é que todo o poder de mudar repousa nas mãos do povo. E deveria ser um processo natural, histórico, de mudança. Nunca o Brasileiro como povo, reunido sob uma só língua, sob uma cultura própria, sob um só Governo, sob uma lei unificada, teve tamanha chance de mudança.
Ao longo dos anos, como resultado de num processo dialético, o brasileiro pôs-se numa posição curiosa. De um lado é oprimido e espremido. Mas de outro, começa a poder honrar a condição democrática que o sufrágio lhe proporciona.
O voto é uma das principais ferramentas das quais o povo pode se valer para iniciar uma revolução.
Tão importante quanto o voto é o fim da covardia do povo. Não é somente o sentimento de impotência que paralisa a sociedade, mas a sua covardia, a falta de coragem.
Creio que a grande maioria dos brasileiros tem exata noção de que, sob um prisma individual, o esforço e sacrifício próprios lideram à obtenção de bens tangíveis e intangíveis.
Todavia, na capacidade de sociedade, os brasileiros nunca experimentaram o reflexo direto de seus clamores. Tudo aquilo atribuído às ações do povo é um verdadeiro engodo.
As insipientes manifestações populares e abaixo-assinados, insuflando-se contra a injustiça que aqui paira, de nada servirão se não forem acompanhados de rebotes palpáveis. Tampouco as ações da nossa mídia prostituída podem realizar. Menos ainda as demandas judiciais, se não houver um pesar sociológico.
Criticamos o Estado, a sua pesada e onerosa organização, mas buscamos empregos públicos eternos, pois eles significam pouco trabalho e boa remuneração. Reclamamos da falta de saneamento e higiene das cidades, enquanto jogamos lixo nas ruas, calçadas, sarjetas e rios. Questionamos a escassez de recursos hídricos, mas desperdiçamos água diuturnamente lavando nossas calçadas e veículos. Indagamos acerca da má-educação alheia e relegamos a educação da nossa prole às escolas. E assim seguimos disfuncionais, brasileiros.
Precisamos tomar para nós as rédeas; por na justa medida tudo o que nos compete e nos é de direito.
Invejamos aos outros países mais desenvolvidos do que o nosso, mais democráticos e justos, nos olvidando de que tudo aquilo foi construído ao largo de suas histórias. Esquecemos, outrossim, que aqueles povos não relegam exclusivamente aos seus Governos a regência de sua sociedade e tomam para si grande parte das responsabilidades.
Elogiamos os europeus. Mas quem faz aquelas nações é o seu povo. Os ingleses caminham quadras e quadras em busca de uma baguete mais
Há também os americanos. Aquele povo arrogante que aprendemos a odiar, após muito tempo amá-los e imitá-los, são também a sociedade que mais faz doações a entidades de caridades e que mais presta serviços voluntários no planeta.
Nós somos a solução. É desmedido querer envergar um Estado em si mesmo, esperando obter a solução final. É o povo que tem que cambiar suas atitudes, suas posições.
Hemos de ser mais proativos em nossa alçada, nossa rua, nosso bairro, nossas pequenas comunidades. Um processo de real reestruturação parte de baixo para cima, não o inverso. Façamos mais, nós próprios, para exigirmos dos demais.
Podemos criar conselhos comunitários para debater problemas locais, buscando conjuntamente soluções, seja coagindo o Estado a solvê-lo ou agindo em substituição deste. Devemos oportunizar o trabalho daqueles à margem das nossas sociedades, dignificando-os. Temos de cuidar de nossas crianças integrando-as à sociedade por meio dos esportes, da cultura e da informática. Precisamos fortalecer as entidades privadas nacionais e exigir sua responsabilidade social e ambiental, assim como a nossa própria.
Há muito por fazer, mas é possível. Somente o fortalecimento da nossa sociedade é capaz de alterar o curso de nossa história. Somos um produto direto de nós próprios.