Já há algum tempo não escrevo. Na verdade, a vontade de fazê-lo é latente todo o tempo, mas a auto-crítica não me permite tornar público aquilo que não acredita ser suficientemente bom. Curioso é que, se tenho a vontade de escrever algo que é um produto do meu pensar, este material deveria ser considerado - ao menos por mim - bom. Não é assim que funciona.
De qualquer sorte, diferentemente das recentes incursões literárias, em que me arvorei a tecer críticas e comentários políticos os quais, a propósito, a minha auto-crítica àquele tempo aprovou mesmo que hoje eu os re-leia com um crivo mais acentuado, hoje me propus a revisitar outros tópicos e sentimentos.
Não sou alguém que costume se arrepender de algo que fez ou deixou de fazer. Não consigo honestamente lembrar de nada que tenha me causado verdadeiro arrependimento. Obviamente, se pudesse voltar no tempo, mudaria algumas coisas, mas nada que produza o sentimento de arrependimento. Sou essencialmente feliz.
Nunca sei se junto ao adjetivo feliz ou ao substantivo felicidade devo usar o verbo ser ou estar, mas como a condição de estar satisfeito consigo próprio e com as andanças da vida - se é que isto é felicidade - me parece ser perene, digo ser essencialmente feliz. Como todo ser humano, entretanto, sempre busco novas coisas e a sensação de insatisfação é igualmente duradoura.
Faço este pequeno intróito porque me peguei relembrando uma fase bem específica da adolecência e não pude deixar de comparar à realidade presente.
Do início dos 16 ao fim dos 18 anos, me desprendi de algumas responsabilidades e decidi viver o presente. Cursei neste período os 2o. e 3o. anos científicos que precediam o vestibular e, consequentemente, a universidade. Mas foi um período muito curto, e que antecedeu estes dois anos, que me propiciou tudo isto.
Estudei quase toda a minha vida em uma escola privada, então considerada uma das melhores existentes no estado. Estando em uma cidade pequena, como é Aracaju, além de princípios católicos, esta escola se pautava pelos valores da sociedade em que estava inserida. Me parece, contudo, que esta escola tinha se perdido no tempo, já que surgiam escolas com metodologias de ensino mais modernas, mais tolerantes às individualidades de cada um, enquanto esta parecia prostrada.
Talvez pela influência de pais educados no Sudeste, sempre vanguardista, com uma visão distinta das coisas, ainda bem novo me lembro de notar quão retrógrado tudo aquilo parecia: silenciar e rezar antes do início das aulas, subir as escadas em fila, uniformes escolares andróginos, livros plastificados em um horrendo padrão com bolinhas azuis ou vermelhas, meninas proibidas de usar qualquer tipo de maquilagem ou bijouterias, a restrição aos namoricos, caderno de verbos, os chamados "bilhetinhos" que reportavam aos pais o mau comportamento...
Por muito tempo, amei tudo isto. Até que, subitamente, já não suportava aquilo. Foi quando quis mudar de escola, de ambiente e até de amigos. Tudo parecia tocado e afetado por aquela redoma que parecia me limitar ainda mais.
Mesmo com toda a insistência que só um adolecente pode ter, não tive êxito em convencer meus pais de que eu precisava mudar de escola. Afinal, havia estudado ali desde os 3 anos de idade. Era, para eles, um ambiente de conforto e segurança e faltavam apenas 2 anos para o fim do colegial.
Eu, todavia, passei a apenas tolerar a frequência escolar. No fim do ano letivo, quando os pais devem fazer a rematrícula, insisti novamente, na esperança de que fosse ouvido. Novamente sem sucesso, apelei.
Um amigo que estudava na mesma escola estava transferindo-se para uma outra que, aparentemente, era a grande novidade do momento. No dia da sua matrícula, acompanhei ele e seu pai para conhecer o estabelecimento e colher mais recursos para persuadir meus pais. Não é preciso dizer que adorei tudo que vi. Todas aquelas pessoas diferentes, ambiente diferente...
Na hora da matrícula deste meu amigo, seu pai foi informado de que haviam poucas vagas disponíveis e que aquele seria o último dia para novas inscrições. Fiquei completamente desolado. Teria de ficar pelo menos mais um ano naquela escola decrépita.
O pai deste amigo, certamente notando o meu descontentamento, ouviu o meu pleito e se ofereceu para emprestar o dinheiro da minha matrícula. Ele sempre foi o tipo de pai que dava ampla liberdade de escolha aos seus filhos e, por isto, acreditou que assim também fossem os meus. Aceitei o seu empréstimo.
Naquele mesmo dia, ainda exultante, resolvi impor a minha decisão aos meus pais. Disse-lhes que havia me matriculado em outra escola e que não havia qualquer hipótese de continuar naquela escola. Foi um reboliço. Até o meu avô que era, sobretudo, meu grande amigo voltou-se contra mim, tamanha a minha "petulância".
No fim, o meu ato serviu para convencer os meus pais, mas não ao meu avô (ele era de um outro tempo), de que aquilo não era somente um capricho. Era algo que eu realmente desejava. Depois de eles terem visitado a nova escola e conhecido parte do corpo dicente, contentaram-se e permitiram que eu começasse esta nova jornada.
Bem, uma nova vida começou. Ou melhor dizendo uma nova versão de mim nasceu. Tudo aquilo que não tinha anteriormente, passei a ter. Nesta escola eu era ouvido e respeitado. Não era somente parte de uma massa homogênea. Lá eu me diferenciava pelas escolhas.
Passei a escolher os meus amigos e não me ater aqueles que tinha por conveniência, afinal convivia com muitos por mais de uma década. Passei a namorar, sair, frequentar outros lugares, conhecer outras coisas. Tudo muito novo e muito excitante.
Fiquei dois anos nesta escola. Com os amigos que lá fiz, vivi muitas coisas boas. Estudava só o suficiente para manter a minha liberdade. Foi um período de pouca ou nenhuma responsabilidade. Não tinha maiores obrigações e podia, simplesmente, desfrutar daquilo que gostava.
Hoje lembrei de tudo isto e fiquei um tanto nostálgico. Não pelo momento em si. Para mim, esta vívida lembrança me basta. Agora, o que me importa são o presente e o futuro. Mas senti saudades de quem eu fui.
Gosto de mim hoje, mas esta versão de mim e que em parte se perdeu, ainda me deixa grandes lições.
1 comments:
Dandao,
Nao sou um dos melhores para te dizer isso mas, nada se perdeu. Pelo contrário, TUDO evoluiu e assim tem de ser a "cadeia evolutiva" para todos nós, claro que uns estão atrasados ou entrando "nos eixos" por agora mas antes tarde do que nunca. Já dizia um bom velho ditado que o ser humano é covarde por nao enfrentar suas responsabilidades e medos. Aprendi muito com vc sobre isso e sou eternamente grato pelos esporros :)
Papa
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