Thursday, March 31, 2011

O Brasil do Politicamente Correto.

Vivemos o início do que parece ser uma nova era na história brasileira. É possível observar melhoras sensíveis nos indicadores econômicos e sociais, ainda que haja um sem número de mazelas que ainda pendem resolução.

Com o crescimento econômico, os reflexos da melhor distribuição de renda e o maior alcance dos programas sociais, os brasileiros passam a ter acesso a um volume maior bens de consumo e, sobretudo, informação, seja por exposição direta ou indireta.

A informação, entretanto, é percebida de forma distinta por pessoas de escolaridade diferente. Em regra, as pessoas com menor evolução educacional tem menores subsídios para processar a informação e construir um conceito a partir daí. Normalmente, estas pessoas absorvem quase que sem crítica as informações dos grandes veículos, tendo-os por paladinos da verdade.

O mesmo ocorre com a informação adquida pela internet. Neste caso com uma diferença crucial. A rede mundial de computadores tem uma maior vocação para distribuir conteúdo de forma rápida e, assim, muito se perde.

Neste novo momento histórico, é notável o processo de aculturação a que estamos nos submetendo. Digo aculturação em seu sentido antropológico. Evidenciam-se influências difusas de culturas alheias às nossas que, por algum motivo cuja compreensão me falha, estão sendo paulatinamente introduzidas ao nosso dia-a-dia.

Grande mostra disto é a cultura do politicamente correto. Num movimento coroado pelo governo Federal, com a confecção de uma cartilha que foi inicialmente hostilizada pela mídia e população, hoje impera a chatice do politicamente correto, em que prevalece o eufemismo.

Sim, compreendo a lógica que suporta a cultura do politicamente correto. Por centenas de anos a linguagem e a cultura vigente adaptaram-se para manter estáticas as castas sociais, inibindo a dinâmica de ascensão. Isto se fez das mais variadas maneiras, desde o Brasil Império, quando os movimentos populares recebiam termos jocosos que lhes atribuíam menor valor; durante a ditadura, quanto aos movimentos culturais; ou mesmo hoje, quando expressões sócio-culturais populares são tidas como de menor valor, a citar o forró.

Não obstante, repudio esta cultura do politicamente correto. Não excluo a possibilidade de ser eu o involuído, mas reitero minha oposição a isto que, ao contrário do que pretende, firma ainda mais os estereótipos, instruindo-nos a evitá-los não somente na linguagem, mas na conduta.

Recentemente, foi ao ar um programa televisivo em que o deputado Jair Bolsonaro expôs seu repúdio ao homossexualismo e, aparentemente aos negros, associando-os à promiscuidade. Surgiram em seguida uma série de movimentos, inclusive na Câmara dos Deputados, contrários à postura do político.

Não apóio qualquer forma de preconceito, ao contrário. Defendo, contudo, o livre direito de expressão. Moralmente, me oponho ao ideário do deputado. No entando, defendo o direito que lhe é assegurado constitucionalmente para tornar público o seu pensar.

Explico. A moral não está compreendida pelo Direito, nem tampouco o oposto. Há fatos regulados juridicamente que padecem de qualquer juízo moral, da mesma forma que há condutas morais que não estão subjugadas ao ordenamento jurídico.

No bojo do vídeo exibido, três perguntas foram grande objeto de crítica. Os tópicos são variados porém controversos: drogas, homossexualismo e racismo.

Quando perguntado o que faria se seu filho fizesse uso de entorpecentes, respondeu: "Daria umas porradas nele". Na sequência, ao ser questionado o que faria se tivesse um filho homossexual, replicou: "Isso nem passa pela minha cabeça, porque eles tiveram uma boa educação. Sempre fui um pai presente, então não corro este risco". Num outro instante foi indagado pela artista Preta Gil, filha do ex-Ministro da Cultura e músico Gilberto Gil, qual seria a sua posição se seu filho se apaixonasse por uma mulher negra. A esta pergunta respondeu: "[...] não vou discutir promiscuidade com quem quer que seja, eu não corro este risco porque meus filhos foram muito bem educados e não viveram em ambiente como, lamentavelmente, é o teu".

Um grande furdunço se ergueu em torno das declarações. Pessoalmente, não observo qualquer ilegalidade aí. Mais. Este reboliço, opino, é resultado de hipocrisia.

Recentemente, quando o governo federal intentou aprovar lei que impedia os pais de valer-se do recurso físico para regrar e educar seus filhos, uma grande discussão tomou a sociedade, que majoritáriamente se opôs ao regramento. Agora, o deputado é rechaçado por reverberar a voz daquela mesma população.

Da mesma forma, o deputado ecoa os valores de uma boa parte dos católicos que, a propósito, são a maioria do eleitorado nacional. Também assim se posicionam os ditos evangélicos. Ele apresenta o homossexualismo como exceção à regra e expõe o seu eventual descontentamento na hipótese de um de seus filhos revelar-se homossexual. Ora, ainda que devamos ser tolerantes com qualquer que seja a opção sexual de cada indivíduo não podemos ser compelidos a apoiar a sua escolha. Nos é dado opinião e juízo de valor próprios, nos sendo vedado tão somente discriminar quem quer que seja.

Em última instância, não fica claro se a resposta de Bolsonaro está fora do contexto da pergunta. Ele não a responde diretamente e, senão por inferência, não se pode determinar se associa negros (ou somente a artista Preta Gil, ou mesmo o meio artístico) a promiscuidade. É preciso ter acesso a filmagem sem cortes e edição para melhor compreender a posição do deputado.

Em nota, Bolsonaro explica não ter compreendido a pergunta. É o que, de fato, parece, inclusive tendo sido ratificado pelo apresentador do programa em que foi ao ar a entrevista.

Muitas das pessoas que pedem a cassação do deputado não compreendem que, mesmo que suas opiniões desagradem, lhe assiste o direito de expô-las.

A mim desagrada a cultura de eufemismos e do politicamente correto. Nos Estados Unidos, a exemplo, onde já vigora o império de chatices não há mais aleijados, somente indivíduos com dificuldades físicas; não há anões, há indivíduos com dificuldades verticais; não há negros, mas afro-descendentes; não há putas e, sim, profissionais do sexo... e assim a lista se estende.

Isto cada vez mais se aproxima do Brasil. Teremos não só que mudar a forma de falar, mas principalmente, deveremos prestar atenção nos estereótipos. Ainda que não o reconheçamos, devemos aprendê-los.

Pior do que isto, teremos que nos filiar a comportamentos sociais ou nos calarmos. Será a democracia dos estereótipos.

1 comments:

Biba said...
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