Não é tarefa fácil apontar os problemas brasileiros. Não porque não sejam evidentes, mas por sua enorme quantidade e variedade.
O Brasil, na verdade não é uma nação. É, sim, uma grande província cujos problemas se expõem no factóide que são as suas instituições.
Uma verdadeira democracia é intrinsecamente dependente da força de seus institutos, os quais devem se sobrepor aos interesses e vontades individuais. Esta nossa província, entretanto, não é fruto de um contrato social, mas de um acordo entre poucos.
Em vários aspectos, a cultura do coronelismo ainda persiste, por vezes transmutada e um tanto mais sofisticada. É perceptível que o instrumental para questionar e contestar os autoritarismos e subjetivismos é inoperante e corrobora com o continuísmo.
São reiterados os abusos que partem de cada um dos três poderes, sem que lhes pese qualquer repercussão maior. A força do establishment é tamanha que não se enxerga – ao menos em um futuro próximo – qualquer possibilidade resolução do problema.
Uma diversidade de indicadores socioeconômicos aponta para o crescimento do país e a melhoria das condições de vida, mas não revelam as mazelas que ainda persistem e assim permanecerão por um longo período. O curioso é notar que não há tensão social.
Curioso porque, há muito, a maior parte da população não é assistida por sistemas de saúde, segurança ou educação minimamente funcionais e não consigo crer que esta passividade seja produto tão somente da política de pão e circo que se perpetua. Penso que é algo cultural.
Não se admite que estes que são o tripé de uma sociedade em desenvolvimento – saúde, segurança e educação – permaneçam sem a devida atenção, salvo se a inação for uma condição introjetada culturalmente.
Costuma-se dizer que o brasileiro é essencialmente feliz. Somos conhecidos mundo a fora assim. Opino em contrário. O povo brasileiro é comodista não é proativo. Surpreende que consigamos tratar problemas tão relevantes e pertinentes a nós com o distanciamento de quem lhes é alheio.
Tratamos de malgrados que nos afligem há décadas com a superficialidade de um debate de mesa de bar.
Não me é desapercebido o ciclo vicioso que passa pela manutenção do povo em estado de necessidade em benefício da manutenção de seletos grupos sociais e econômicos no poder.
Não me olvido, da mesma forma, que somos uma democracia jovem e, por isto, ainda estamos forjando nossa identidade nacional e conceitos próprios de sociedade. Nada obstante, insisto que, em sua maioria, a população percebe que detém o poder e que a mudança lhe cabe.
Se possível fosse pontuar uma única condição social e cultural, arriscaria que o problema reside no fato de que somos um país cujos cidadãos, por assim dizer, ainda não conseguiram alcançar o conceito do coletivo e se fixam nas individualidades e pequenezas. Não há um esforço concentrado em grandes objetivos nacionais ou mesmo regionais. Há, sim, um anseio individual da maioria em revestir-se de autoridade e força. Os que não partilham deste falso revanchismo aguardam que alguém lhes salve, abrindo caminho para um perigo maior que é, ceder a uma classe específica de político, maior poder do que é salutar e necessário para o exercício do cargo.
Nem todos, todavia, persistem impassíveis. Dentro de um ambiente diminuto e limitado, alguns avançam econômica, social e politicamente, fazendo-se – por vezes – respeitar e ouvir, a ver o novo empresariado nacional, constituído de pequenos e médios empresários.
Esta condição cultural atrasada, no entanto, é tão arraigada que faz com que o sucesso seja sempre atribuído a uma malfeitoria ou ao acaso e jamais é associado ao talento, esforço, resiliência ou persistência. Em um reduto de mediocridade, os poucos que renegam a condição de subjugação, que se quer impor como natural, são denegridos e acossados.
Somos um país capitalista que refuta os princípios mais básicos desse sistema de produção. Tampouco somos socialistas, dada a incompatibilidade desse sistema com a concentração de renda e dos meios de produção que aqui prevalece.
Rechaçamos a competição; estendemos regalias aos trabalhadores sem que lhes possa exigir contrapartida; estrangulamos a produção com a pouca oferta e alto custo do crédito; sufocamos a economia com a tributação excessiva; nos rendemos a pressão dos mercados externos – exportamos produtos com baixo valor agregado e importamos produtos com alto agregado de valor –; damos tratamento especial ao capital estrangeiro, mesmo o especulativo; usamos mal o dinheiro público que esvai-se não somente pela corrupção mas pela inépcia; fortalecemos as complexidades e burocracias comerciais; abafamos os movimentos populares etc.
Somos, enfim, uma província.
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