Nos últimos 16 anos houve melhoras sensíveis na realidade do brasileiro médio. Com a criação de programas sociais e de redistribuição de renda, investimentos maiores em infra-estrutura e o fortalecimento do consumo interno, o Brasil foi capaz de dar um salto qualitativo sem, contudo, livrar-se dos problemas que o afligem.
Ao estudar o nosso país, mesmo consideradas as recentes melhorias, detectamos sempre as mesmas problemáticas: a quase falência, incompetência e incapacidade de gestão do poder público, que se refletem diretamente na saúde e educação; o falido sistema político e corrupção escorchante; infra-estrutura ultrapassada, subdimensionada e desatualizada; programas sociais que não são acompanhados por condições reais de inserção nos mercados de trabalho, pela ausência de instrumentos de educação e capacitação técnica e profissional; o ineficaz e oneroso sistema tributário, que produz grandes distorções e limita a competitividade nacional; a crescente violência urbana dentre várias outras.
Nada disto é novo. O que impressiona é que, indagado, um brasileiro médio irá responder que a causa disto tudo reside em uma de duas coisas ou em ambas: falta de educação e corrupção. A lógica é que a má qualidade da educação nacional não dá aos cidadãos brasileiros conhecimento e discernimento suficientes para escolher seus dirigentes. Daí, a despeito do processo político-eleitoral existente, e como resultado da ignorância nacional, a classe política seria formada pelo voto do populacho, em troca de benesses menores. Esta mesma classe política não teria, portanto, interesse no avanço educacional do país e estaria aí instaurado um ciclo vicioso e sem fim.
A existência deste ciclo é inegável e irrefutável. Não obstante, o senso comum não explica algumas distorções nas linhas-mestre deste raciocínio. Nos municípios do país não se detecta necessariamente a redução da corrupção onde os índices educacionais são melhores. O que não se revela é que o poder de crítica trazido pela melhor educação não redunda obrigatoriamente em ação.
O povo brasileiro, especialmente sua parcela mais educada, é passivo e, ao contrário de alguns de seus pares na América Latina, tal qual o Chile e a Argentina, nada demanda dos seus governantes. Nada de relevante, ao menos.
O brasileiro é capaz de submeter a anos de opressão, sem promover uma marcha ou protesto, décadas de concentração de renda e falta de trabalho e emprego, longos períodos de hiperinflação, sistema de saúde e educação falidos e... nada. Ou melhor, os alunos da Universidade de São Paulo (USP) parecem ter encontrado algo pelo que se revoltar.
Recentemente, após um assassinato no campus da universidade, a pedido dos próprios estudantes, a reitoria reforçou a segurança com a presença da polícia militar (PM). Em cumprimento de seus deveres e atribuições, a PM passou a coibir o uso de drogas dentre outras condutas. As recorrentes rusgas entre policiais e estudantes foram suficientes para provocar os estudantes e fazê-los ocupar a sede da reitoria da universidade.
Tantas são as mazelas do país e essa parte da população privilegiada, a dita "nata" intelectual do Brasil escolhe uma bandeira: o livre uso de drogas no campus. A inversão de valores é tamanha, que choca até os mais liberais.
Dizem os estudantes que o uso de drogas não produz mal algum a ninguém, exceto a eles próprios. Surpreende que estes cidadãos pensem assim tão limitadamente, especialmente quando representam a elite literada da nação.
A despeito dos efeitos negativos em seu uso continuado, poucos argumentam que o uso da maconha seja mais prejudicial que, por exemplo, o consumo de álcool. Há uma extensa discussão que debate a hipocrisia e arbitrariedade de se liberar o consumo de uma droga como o álcool ou mesmo do cigarro de tabaco e coibir o uso da maconha. Não obstante não fazer uso de qualquer droga ilegal, sou partidário da liberação da comercialização e do uso da maconha pelo simples fato de crer que a legalização desta droga traria mais benefícios que malefícios, principalmente considerando a supressão de parte significativa da renda de quem a comercializa, os traficantes.
E é justamente isto que olvidam os nobres estudantes da USP. De fato, no que concerne o usuário, a maconha não produz maiores resultados. No entanto, pela sua ilegalidade e a existência de todo um sistema que sobrevive também do seu consumo, a maconha produz efeitos nefastos para a população - são estes recursos financeiros responsáveis pelo armamento das milícias e do chamado "poder paralelo" e, consequentemente, da violência. As "brilhantes" mentes destes estudantes parecem não ser capazes de processar o completo ciclo que se inicia com o consumo de drogas ilegais.
Estes que não temo chamar de moleques mimados indignam-se pelo cerceamento de suas "liberdades". Esquecem-se, novamente, de que viver em sociedade é aderir ao contrato social. É respeitar a norma imposta em benefício do todo coletivo e não de si próprio.
Apoio incondicionadamente a recente "marcha da maconha". Aquele ato, então promovido para pedir a liberação do uso e comercialização da maconha é uma demonstração pública e uma forma pacífica de se exercer cidadania. A ocupação da sede da reitoria da USP, todavia, não é nada senão uma grande afronta.
Me felicita que a aplicação da lei e atuação da polícia estão sendo céleres e exemplares. Me pergunto, contudo, onde estão os pais e mães destes estudantes. Salvo melhor juízo, a grande maioria ainda vive das posses de seus responsáveis. Se estes não são capazes de invocar de seus filhos responsabilidade e seriedade, creio que mais uma instituição do país se quebrou: a família.
Wednesday, November 09, 2011
Saturday, November 05, 2011
Manifesto em prol do empreendedorismo.
Por décadas o Brasil viu sua economia sucumbir e minguar diante da hiperinflação, corrupção, desgoverno, desemprego, falta de investimento em infraestrutura, pouca ou nenhuma oferta de crédito dentre diversos outros malgrados.
Durante este período, o brasileiro teve de ser inventivo e desdobrar-se para subsistir, o que produziu um efeito direto sobre o país, sobretudo para empreendedores. Daí a recorrente assertiva de que o Brasil é o país do empreendedorismo. Esta afirmação é ainda reforçada pelo fato de que, à época - e isto persiste hodiernamente -, uma parte significativa dos empregos gerados no país (pouco mais de 60%) resultavam de pequenas e difusas organizações empresariais e não de grandes conglomerados econômicos.
É notória a flexibilidade e capacidade de adaptação de uma grande parte destes profissionais brasileiros, os empreendedores. Não obstante, refuto o argumento de que estes tempos difíceis produziram um país de profissionais distintos e aptos a empreender. Ao contrário, defendo que a instabilidade e inconstância dos mercados e do país como um todo reforçaram as burocracias e criaram um sem número de tecnocratas.
Não me é desapercebida a competitividade que o empreendedor brasileiro médio opõe aos seus pares oriundos de outras partes do globo. Tampouco olvido a sua grande relevância econômica. Ratifico a noção de que o Brasil possui empresas e empresários extremamente preparados e capazes. Entretanto, creio que estes formam um grupo reduzido de indivíduos, em detrimento de uma massa de parca proatividade.
Ocorre que uma larga parcela dos brasileiros reitera o pensamento de que o sucesso empresarial, especialmente quando ostensivamente representado no acúmulo de riquezas, é advindo de qualquer outro elemento que não aqueles que realmente o produzem: preparo, trabalho árduo e resiliência. Parecem equiparar o ente privado ao público e vislumbram qualquer evolução patrimonial, ainda que singela, como objeto de alguma prática ilícita ou obscura.
Em tempos de bonança, cresce a economia e, bem assim, prosperam os negócios (ou assim se espera). É então que ladeiam-se burocratas e tecnocratas para rechaçar o empreendedor. Despropositadamente, vêem-se estes, nestes tempos, como paladinos dos limites morais e éticos do capital.
Em verdade, reputo esta, que julgo pobre e errônea, avaliação às próprias limitações que este grupo de pessoas se impõe. Por vezes são gente altamente graduada e especializada cuja falta de arrojo aponta para um caminho que não privilegia o risco. Esquecem-se de que na via oposta, pode-se perder tudo, principalmente em um país que condena ao ostracismo eterno aqueles que fracassam.
O fato é que nenhum indício parece suportar a argumentação de que o Brasil é o país do empreendedorismo. O brasileiro médio parece estar pronto para invejar o resultado do empreendedorismo, quando positivo, mas não quer suportar a sua via crucis.
Ao contrário do que se passa em países prósperos, que exibem grande apoio e reverência às atividades de sua classe empresária e seu sucesso, o Brasil cria barreiras burocráticas, não dispõe de políticas de fomento, limita o crédito, tributa em excesso, onera as contratações de mão-de-obra e acaba por transferir o custo de sua ineficiência para aqueles responsáveis pela maior parte da economia nacional.
Penso que é digno de salvas este corpo de desbravadores e por que não dizê-los heróis. Mais, os empreendedores brasileiros são merecedores de respeito e atenção e não lhes é justo aviltar seu trabalho e sucesso.
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