Friday, December 14, 2012

Educação.

Direi o óbvio. Tenho por fundamental o problema da educação no Brasil. Reconheço que até há pouco não havia me apercebido de quão afetados somos, como sociedade, pelos defeitos no processo educacional formal.

Não sou um homem de rotinas o que, inclusive, me atrapalha. Porém, tenho um regime matinal que se repete todos os dias. Evitarei os detalhes sórdidos, mas o fato é que aqueles poucos minutos de total reserva que muitos têm logo cedo, são consumidos lendo a grande maioria dos folhetins eletrônicos.

De posse do celular, tablet ou laptop invisto um bom tempo da manhã vendo as mais recentes publicações dos portais digitais e as próprias redes sociais que integro. Mais do que permitir o fácil acesso à informação, gosto desta natureza de veículo pois possibilitam a interação da notícia com os seus leitores e lá, ao fim de cada uma delas, ficam registrados os comentários daqueles que, como eu, as lêem.

Torno ao tema da educação por que me revolvem as tripas alguns dos comentários feitos nestas mídias. Não por que ocasionalmente não partilhe da opinião externada, mas - na grande maioria das vezes - pela sua completa falta de estrutura e subsídio.

Imagino, talvez ignorantemente, que as pessoas que acessam esses meios de comunicação integram a classe média e, portanto, têm acesso à educação de melhor qualidade. Contudo, até mesmo o meu conceito de educação de qualidade parece falho.

Me parece que as ações dos últimos governos, e assim menciono indistintamente os de direita e de esquerda, em vez de buscar substanciais melhoras na educação nacional, paulatinamente reduziram a qualidade da educação de forma geral, numa tentativa de nivelar o conhecimento por baixo.

Vejo subvertidos os conceitos mais básicos que permeiam a nossa vida. Noções sobre democracia, justiça, capitalismo, a função do Estado, propriedade privada e outros tantos sustentáculos da vida moderna parecem perdidos.

A vontade da maioria é ignorada subitamente quando em desacordo com interesses de um grupo restrito da sociedade; uma notícia de um suposto malfeito imediatamente redunda na demanda da sociedade por punição sem qualquer contemplação à justiça; pugna-se para que o Estado se torne mediador e interventor em toda e qualquer questão menor; o privado é compreendido como público e vice-versa; e muito mais.

Percebo como o meu desagrado pode ser atribuído ao desgosto com a essência egocêntrica humana e não à falta de educação. Talvez, em parte, até o seja. Mas acredito piamente que, sabedores e conhecedores de algumas noções básicas, poucos tornariam públicas visões tão conturbadas e se o fizessem, talvez fosse em prol da defesa do anarquismo e não de alguma estupidez infundada.

Cito esses comentários que vislumbro como icônicos da ignorância quase generalizada que nos aflige, mas evidentemente a inaptidão à leitura, a inabilidade matemática e outras tantas deficiências do brasileiro médio advêm do mesmo modelo falido de educação.

No entanto, defendo que se falham as mais simples noções dos sustentáculos da vida em sociedade, falha todo o resto. O Brasil adota uma estrutura de educação que não contempla a construção do conhecimento a partir da edificação do indivíduo. Ao contrário, atribui valor à repetição da informação e despreza o verdadeiro aprendizado e conhecimento.

Jamais fui um aluno exemplar. A despeito de ter frequentado sempre boas escolas (em uma escala que sempre me fugiu a compreensão), fui sempre um aluno medíocre. Contudo, atribuo isso a mais do que minha simples apatia.

Mesmo não tendo enfrentado alguns dos problemas basilares da educação nacional como a baixa qualidade e carência de professores, materiais escolares, infraestrutura, alimentação, transporte e outros, me deparei com um que sempre me pareceu de suma importância: o sistema educacional brasileiro é retrógrado e tolhe a capacidade intelectual dos estudantes.

Orientado para memorização e acúmulo de informação, o método educacional olvida a sua contextualização e sua função. Muitos alunos tem bom desempenho escolar, não pela sua capacidade de processar informação, mas de repeti-la e de se enquadrar. O inverso é igualmente verdadeiro. Mesmo no ensino superior a realidade se repete.

Quando estudante, sempre recusei os caminhos rápidos para responder questões. Não porque não os achasse válidos, mas porque tinha - e até hoje tenho - imensa dificuldade em memorizar algo que não compreendo.

Talvez por não receber grandes cobranças em casa, jamais dei maior importância às gradações que recebia nos exames, mas observo hoje que era exceção. Vejo como a inadequação de alguns os levou - mesmo que temporariamente - a se enxergar incapazes e incompetentes, quando na verdade simplesmente não se adequavam.

Estes indivíduos que são muitos, a maioria, muitas vezes tendem a perder a capacidade crítica e passam a replicar noções e conceitos sem as analisar e compreender. Dizem coisas vãs, sem conteúdo. Constroem seu trabalho e suas vidas sobre estas mesmas premissas e assim criam o Brasil do futuro.

São eles o retrato do Brasil do amanhã. É a sua falta de capacidade crítica e discernimento que produz uma casta política de tão má qualidade, que gera valores básicos invertidos e deturpados. Nada se questiona, nada se indaga, tudo se repete. Sem educação, mesmo nação rica, nos manteremos ignorantes e, a médio e longo prazo, seremos engolidos por potências menores cujos investimentos se concentram na construção de cidadãos melhores, questionadores.

O Brasil de hoje, deslumbrado com sua rápida ascensão a posto de potência, não terá qualquer relevância se não priorizar educação.


Tuesday, August 21, 2012

Mentira: um textículo.

Eu não sei mentir. De verdade! Sou um péssimo mentiroso... O que não quer dizer que não o faça.

Às vezes, as circunstâncias me forçam a mentir. A todo o tempo somos compelidos a dizer aquelas pequenas inverdades que nos permitem viver em sociedade, mas as minhas bochechas ruborescem de pronto, numa delação cabal do ato furtivo. Aí o nervosismo me toma e o sangue que faz corar minha face é o mesmo que some das extremidades. Logo irrompe um suor gélido, o coração acelera e os músculos perdem sua tenacidade. Baixam as pálpebras e  com ela a cabeça, num aceno que torna ainda mais nítido o embuste.

Não digo isso em auto elogio, tampouco aqui pretendo promover minha suposta castidade. É que me custa esse traço. Diversas situações embaraçosas são criadas a partir desta minha inabilidade. Muitas são as vezes em que o interlocutor prefere a lorota à realidade. E mesmo dizendo aquilo que se prefere ouvir, fica tão clara e transparente a minha descrença no discurso que o outro não consegue percebê-la como verdade. Ainda assim, não sou um grande defensor da mentira. Não sei até que ponto um mundo de verdades nos seria mais duro.

Toco no assunto da mentira com esta breve introdução apenas para ilustrar como eu a vejo. Não tomo a iniciativa de mentir, mas quando indagado ou provocado, se a situação pede uma resposta divergente do que penso - minto. No entanto, me fez escrever o texto a percepção de que uma parte das pessoas que conheço mente sem qualquer pesar, ativa ou passivamente.

Minto bem, mas só para mim mesmo. Sou capaz de me convencer de quase qualquer coisa. Mas meu cérebro insiste em me recordar de que aquilo não é verdade, quando falo com um terceiro. Essa não parece ser a máxima geral.

Tenho alguns exemplos de pessoas mais próximas, de cuja vida conheço os pormenores. É incrível vê-las interagindo com outros indivíduos. Parece que as estou assistindo a uma verdadeira peça de teatro. Parecem incorporar um personagem, tamanho é o descalabro.

Sobretudo no nosso tempo, em que as mídias sociais permitem uma impessoalidade ímpar e as pessoas conseguem interagir com um distanciamento surpreendente é que se constatam mais evidenciados tais comportamentos.  Aos outros, exibem-se diferentes do que de fato são.

No mundo digital é ainda mais fácil que alguém pobre, feio, incauto, desmedido, preguiçoso, desocupado, despiedado e rude se apresente como rico, bonito, prudente, razoável, esforçado, trabalhador, compassivo e doce.

É sofrível ver que determinadas pessoas citando autores maiores e entoando lições morais às quais não aderem. E pior: vê-las externando como seus valores cujas suas próprias ações denegam. Se as suas faces não se avermelham, será que a sua consciência não lhes repreende?


Tuesday, July 17, 2012

Pré-Conceito.


Cumprindo o que havia dito em minha última postagem, torno a escrever mas agora busco algo além de um mero reforço do meu ego e tento apresentar neste espaço temáticas mais relevantes.

Bem, contratei já há algum tempo um serviço chamado Netflix que propõe trazer sem maiores embaraços aos seus clientes filmes, documentários e afins de diferentes gêneros. A princípio, fui fisgado pelos muitos programas infantis à disposição – tendo uma filha de 3 anos, seria a sua fonte de diversão e a minha de tranquilidade em passeios e viagens. Ela, entretanto, se interessou pouco e o relativamente baixo valor da assinatura mensal (R$14,90) me permitiu não dar maior atenção ao assunto.

Gosto de tecnologia, mas não me diria um aficionado. Sim, gosto dos MacBooks, iPhones e quetais, mas muitas vezes os tenho sem utilizá-los ou extrair deles seu máximo potencial. Contudo, não escrevo este texto para tecer comentários sobre esta ou aquela tecnologia. O faço tão somente porque o tal do Netflix me proporcionou uma experiência fantástica.

A despeito da seleção, ao meu ver, pouco interessante de películas, me chamou a atenção a possibilidade de assistir às TEDTalks. Já assisti a alguns TEDx que, em suma, tratam sobre assuntos diversos no âmbito dos negócios. Mal sabia o que ali me aguardava.

Os mencionados TEDTalks são, em verdade, palestras ministradas por doutos e eminentes pensadores do nossos tempo. Estes escritores, filósofos, políticos e outros discorrem para uma plateia de igualmente seletos membros.

Não estou seguro de que a seleção foi aleatória, mas findei por assistir em sequência, três destes sábios que, de maneira distinta, discorreram sobre um tema comum.

Com abordagens bastante particulares e distintas entre si, cuidaram do tema da diversidade (étnica, cultura, social, econômica...) como jamais vi.  Mostraram que a riqueza está em descartar modelos pré-estabelecidos e construir suas próprias percepções e valores a partir da experiência. Diziam-se eles mesmos mutuamente autores e vítimas de impensáveis pré-conceitos e recomendavam rechaçar ativamente os juízos rasos e rápidos. É possível ver estes vídeos online no YouTube e, salvo engano, no próprio endereço eletrônico da TED.    

Tudo o que vi me comoveu e enriqueceu profundamente. Contudo, foi algo dito aparentemente fora do contexto que mais me tocou. O último dos três a que assisti, um escritor nigeriano cujo nome olvido momentaneamente, falava por meio de parábolas e histórias pessoais.

Em dado momento, mencionou visivelmente emocionado, que sua família (então composta de sua mãe e cinco filhos – ele incluso) foram vítimas da guerra civil na Nigéria. Em dado momento resumiu a força sua mãe com uma de suas frases: “Não há nada que um homem possa fazer, que eu não possa consertar”, diria ela em um sarcasmo de inteligência insuperável.

O que mais me moveu, no entanto, foi uma história contada acerca deste período sombrio de sua vida. Em meio à guerra, deslocavam-se ele, irmãos e mãe entre os diversos campos de refugiados instalados pelo país. Sua mãe, inglesa, buscava uma forma de deixar o país e rumar para sua nação de origem. Deparava-se a todo tempo, em meio ao êxodo, com guerrilheiros que em suas incursões buscavam inclusive crianças para integrar o seu plantel. Um de seus irmãos, que à época tinha apenas 9 anos, era alvo constante destes sujeitos. Era a força da sua mãe que debelava as investidas e tentativas de levá-lo. Segundo ele, durante todo este período, sua mãe não verteu sequer uma lágrima.

Quando, enfim, conseguiram chegar ao aeroporto de onde partiriam para Inglaterra o aspecto deplorável de sua família, resultado das condições a que haviam sido submetidos, foram abordados por uma mulher que ali passava. Esta senhora lhes indagou o motivo daquele deplorável estado. Tendo ouvido impassível ao que lhe contara a senhora de vestes rotas, não teve outra reação senão assistir-lhes, dando-lhes, as suas bagagens, roupas e demais conteúdos. Naquele momento, o palestrante viu sua mãe chorar.

Anos depois – contou – resolveu arguir a sua mãe o porquê de não ter se emocionado diante de todo aquela moléstia, mas de ter se derramado em lágrimas diante da boa ação daquela senhora. Ouviu, o que acredito ser das mais belas e contundentes mensagens já ditas (cito em tradução livre): “Consegue-se proteger o coração contra todos os males dos homens, mas o mesmo não é possível diante de um ato de gentileza e bondade”.

Extraí daí duas verdades que pretendo levar comigo para sempre: a primeira é de que, a contrário do que parece conceber o senso comum, um simples gesto de bem tem poder maior do que todo o mal que o antecedeu. A segunda é a de que qualquer preconcepção é desinteligente. Houvesse a bendita mulher se atido aos valores atuais que associam pobreza e indolência, ou pobreza e criminalidade, jamais teria tido a oportunidade de conhecer a história da família do escritor e de ter-lhes marcado a vida.

Falho que sou, estas são lições com as quais procurarei verdadeiramente aprender. Fazer parte de uma minoria dominante me faz mais algoz que vítima nesta dinâmica social que rotula o desconhecido. É preciso enxergar a riqueza que existe nas histórias alheias e no conhecimento. É necessário ver além daquilo que estamos condicionados a olhar.

Tuesday, July 10, 2012

De volta ao início. Rumo ao fim.

Acredito que toda pessoa que escreve e expõe um pensamento seu o faz por uma necessidade íntima. O faz por que lhe urge contestar um argumento, protestar contra um fato, afirmar uma opinião, provocar uma reação, obter confirmação, satisfazer seu ego...


Sempre cri que escrevia sobre assuntos que me moviam, verdadeiramente. Contudo, relendo minhas últimas publicações - na sua quase totalidade tocantes direta ou indiretamente à realidade social, econômica e política brasileira - percebi algo: a minha imensa e despropositada ingenuidade.


A um adulto, homem feito, no entanto, não é dado ser despido de malícia. Somente um idiota pode tratar com paixão um tema que exige tanto ceticismo quanto a política. Permitir consumir-se em fúria ao enxergar repetidas vezes as imorais práticas que predominam a nossa vida política é uma confissão de pouca inteligência. 


Pior é não ver correlação entre a classe política e nossa sociedade, crendo-nos meras vítimas, impassíveis diante de todo o lamaçal. Isto é, minimamente, cerrar os olhos para aquilo que a vida nos apresenta como mais evidente: a 'filhadaputice' (perdoem-me o neologismo) alheia, por ação ou omissão.


Ao contrário do que possa parecer, não estou desgostoso com a vida. Por sorte e por hora, nenhum problema que a vida me propõe tem solução mais complexa do que a de encontrar alguns tostões aqui e acolá. Não que (a falta de) dinheiro não seja um problema, mas considerando as possibilidades diria ser o menor dos possíveis...


Volvendo: Sim, até hoje meus breves escritos se materializaram por impulsos fortes. Porém, não partiram de uma vontade nobre, mas tão somente pela necessidade de ocultar fraquezas. Não me refiro tão somente à ingenuidade, mas de todas as imperfeições que fazem de mim um perfeito ser humano.


O tema político é perfeito, pois somente denunciava um de diversos outros deméritos. Tratar qualquer questão que nos toque mais profundamente exige, além de um hercúleo exercício dialético, coragem. Busquei ratificar uma suposta destreza intelectual em detrimento de vasculhar fatos e sentimentos mais relevantes e potencialmente mais interessantes aos muito poucos que me lêem - cuja confirmação me é cara, sobretudo para suportar meu frágil ego.


Desconhecedor da sua biografia pessoal, não iria tão longe de querer sê-lo. Todavia, me traria imensa satisfação poder compulsar a alma humana, sobretudo a minha, com tamanha acuidade e despretensão como fez Nelson Rodrigues.


Isto dito, aviso-lhes que iniciarei um novo momento da minha desabonada vida editorial. Não sei o quanto conseguirei evitar os bordões e clichês, mas me aventurarei em escrever espécies de críticas da vida cotidiana, seja sob a forma de contos, relatos ou quaisquer outros padrões de escrita.



Tuesday, March 27, 2012

Protecionismo vs. Liberalismo



Não sem motivo, as reações do governo brasileiro ao capital estrangeiro sempre foram pouco balanceadas e, por que não dizê-las, excessivas.

Estivemos sempre sob a égide do protecionismo da economia nacional ou do liberalismo econômico e isto, por consequência, gerou resultados igualmente exagerados: um parque industrial pífio, produtor de bens de reduzida qualidade e baixo valor agregado, quase imune às exportações dos países ricos – quando sob a proteção do Estado –; ou uma indústria cambaleante e incapacitada de concorrer em condição de igualdade, em meio a um mercado inundado por produtos importados de preço atrativo e alto valor agregado – quando sob a permissividade neoliberal.

As respostas desmedidas do Estado sempre ocorreram motivadas pelo sentido de urgência de, de alguma forma, tutelar os interesses da indústria nacional, oprimida pela força do capital internacional, ou proteger os interesses dos cidadãos, de ter à sua disposição produtos de boa qualidade a preços razoáveis. Ocorre que o mecanismo, de estrangular a entrada de produtos importados ou de afrouxá-la, é temporário e não dá cabo do real problema: a ineficiência da indústria nacional.

Temos, sim, grandes indústrias a exemplo da Petrobras e Vale do Rio Doce, entretanto, seus produtos são, em resumo, commodities. Com raras exceções, não participam do rol de exportações do país produtos de alto beneficiamento e valor agregado. Isto é, em grande parte, resultado de uma conjuntura de inflação incontrolável, instabilidade social e política, concentração de renda, moeda desvalorizada, juros impagáveis e crédito restrito, sistema tributário de regras obscuras e elevada carga, infraestrutura deficitária, falta de mão-de-obra qualificada, ônus trabalhistas grandiosos, dentre outros variados elementos.

Durante os governos de Fernando Henrique Cardoso e Luís Inácio da Silva, o Brasil conseguiu, não sem dificuldades extraordinárias, mitigar alguns efeitos de sua ineficiência.

Em um instante inicial, o país adotou como moeda o Real e pôs em voga as regras e instrumentos que lhe permitiriam controlar a inflação. Ao mesmo tempo, adotou o regime de superávit primário que findou por permitir ao país amealhar suficientes recursos para manter a paridade da nova moeda ao dólar norte-americano, ainda que exigindo o sacrifício da indústria nacional àquele tempo.

A posteriori, o Brasil assentou os pilares dos programas sociais e de transferência de renda que terminaram por se expandir e fortalecer; desenvolveu relacionamento com mercados então considerados alternativos, sobretudo no continente Africano e Asiático, vide a China e países do Oriente Médio, ganhando relevância e locução internacional e limitando a sua dependência dos Estados Unidos; intercedeu diretamente na economia elevando o volume de concessão de crédito nas diversas classes e ensaiando reduções nas exorbitantes taxas de juros; deu poder, autonomia e liquidez aos bancos públicos e de fomento; criou programas de desenvolvimento nacionais e regionais e adotou medidas específicas para combater as consequências da crise que assola o mundo.

Mesmo com estes inúmeros e inegáveis avanços, o país carece de meios para competir com países mais ou igualmente ricos. A consequência direta e imediata disto é que, com o aumento da capacidade de consumo da população – vide o ingresso de mais de cinquenta milhões de cidadãos na classe média –, a balança comercial brasileira mostra sinais de estresse com a verdadeira invasão de bens importados.

O mercado de consumo brasileiro, todavia, cresce a olhos vistos e exige um incremento na oferta de produtos com bom padrão de qualidade e adequado preço, a demanda é essencialmente por bens com alto valor agregado tais quais veículos automotores, equipamentos eletroeletrônicos e uma imensa gama de itens.

A conjuntura, novamente, não favorece o Brasil, mormente pela condição supervalorizada da moeda que propele as importações e constrange as exportações e, naturalmente, pelo ambiente pouco propício e competitivo.

Em resposta, o governo da presidente Dilma Rousseff, como fora feito por outros governos em ocasiões semelhantes, assume postura evidentemente protecionista, exigindo grau mínimo de nacionalização de empresas atuantes no país beneficiadas por regimes de tributação diferenciada ou participantes de licitações públicas; sobretaxando produtos importados, a ver o aumento de Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI) para automóveis importados; impondo um aumento do Imposto sobre Operações Financeiras (IOF) no intento de limitar o influxo de capital especulativo; e outras tantas medidas que vêm sendo rechaçadas oficialmente perante Organização Mundial do Comércio (OMC) e oficiosamente na imprensa internacional.

Algumas circunstâncias deste cenário, contudo, convidam a uma análise mais minuciosa.

Não sem repercussão, em tempos outros, o Brasil adotou medidas igualmente duras. O alvoroço, no entanto, não ocupou naquelas ocasiões as primeiras páginas dos principais veículos de mídia estrangeiros, como agora ocorre. É que, com a crise econômica mundial que corrói as economias mais ricas do planeta e o pouco antecipado crescimento dos chamados países do BRIC (sigla que faz alusão ao bloco de países compostos por Brasil, Rússia, Índia e China) e outros mercados emergentes (outrora intitulados de nações de terceiro mundo), estes países tradicionalmente de pequena relevância passaram a ser vistos como parte da solução daqueles outrora mais abastados, dado o seu agora vasto poder de consumo. Arraigados à sua visão imperialista e apegados ao simulacro de poder de quem deteve a quase totalidade de riquezas do globo, estas nações agora às voltas com o alto endividamento público, ineficiência da administração pública, população envelhecida e, por consequência, insustentáveis custos de previdência, exercem o seu direito de espernear.


Algo que também invoca reflexão é que, em oposição às ações de outros governos, o da atual presidente busca soluções para conferir ferramentas ao empresariado nacional para crescer e ganhar competitividade. Partindo pela paulatina redução na taxa de juros, seja pela manutenção da SELIC em níveis historicamente baixos ou pela atuação dos bancos públicos, chegando ao chamado “pacote de bondades” a que tem se referido a mídia nacional sobre o conjunto de medidas que pretende adotar o governo federal, incluindo a reforma tributária, desoneração da folha de pagamento, flexibilização das leis trabalhistas, abertura e ampliação de linhas de crédito produtivas e outras benesses, o atual governo exibe, ao menos na retórica, maior compromisso do que os anteriores com a vitalidade da economia nacional.

É imperativo para o país que a equipe de Dilma Rousseff mantenha como objetivo primário reduzir as ineficiências da indústria nacional e o consequente custo-Brasil. Outrossim, há de se notar que a excessiva proteção pode redundar em acomodação e, como ocorreu em passado recente, livre das pressões de mercados mais desenvolvidos a indústria nacional deixou de modernizar-se e oferecia (como ainda o faz, em menor escala) produtos de baixa qualidade a preços superestimados. Da mesma forma, não se pode transferir ao consumidor os custos deste imbróglio. Concomitantemente, é preciso enxergar que, a despeito de sua bancarrota, os Estados Unidos e Europa são mercados vitais e detém grande poderio político econômico, portanto a acuidade na dosimetria das medidas deve ser a maior possível.

O equilíbrio é fundamental nesta dinâmica equação, cujo produto resta por ser definido. Se for meticuloso, o Brasil poderá em um único ato estimular sua economia, promover as melhorias estruturais necessárias e proteger sua indústria das atuais pressões econômicas internacionais, ao mesmo tempo em que poderá beneficiar os consumidores com produtos de qualidade e preços mais justos.


Sunday, March 04, 2012

Veni, vidi, vici.


Um tanto tardiamente, confesso, assisti o documentário sobre a vida do piloto de Fórmula 1, Ayrton Senna. Em pouco mais de noventa minutos, a obra tenta, com algum louvor, mostrar a vida deste grande esportista.

A película me comoveu diversas vezes, entretanto não foi o seu apelo emotivo que capturou a minha atenção. Na verdade, o subtexto é que me convidou à reflexão. É que o filme, à seu modo, responde uma pergunta que as pessoas se fazem a todo o tempo: o que é sucesso e o que conduz alguém alcança-lo?

É certo que aqueles que obtêm bom resultado em suas atividades trilham caminhos diversos e têm características distintas uns dos outros. Não há uma fórmula precisa a ser seguida, entretanto, alguns traços – observo –, parecem ser comuns a todos.

Ayrton Senna foi uma pessoa de muitas qualidades, umas positivas e outras nem tanto, mas lhe sobrou um componente vital: foco.

Desde o início de sua curta carreira, encerrada brevemente por uma fatalidade, o tricampeão mundial traçou objetivos claros e, não sem questioná-los, manteve-se fiel a eles por todo o período em que esteve no esporte. O seu afinco e determinação em torno destas metas foram determinantes para que chegasse ao posto almejado.

Criado em berço de ouro, a vida presenteou Ayrton com oportunidades ímpares e possivelmente outro menos favorecido não poderia gozar de iguais chances, mas não foi o contexto que o definiu e, sim, o contrário.

Mesmo dentro de um ambiente – diga-se, privilegiado – Senna teve de superar grandes adversidades e galgar seu espaço. Além de ultrapassar as barreiras da acirrada competição de seu esporte, teve ainda de suportar as pressões da política interna que a Fórmula 1 comporta.

Seu foco jamais foi a vitória pela vitória. Foi o de superar seus limites, dar mais e o melhor de si. Quando tiraram-lhe injustamente o título mundial, Ayrton enfureceu-se mas não se sentiu menor. Ao contrário, sua frustração o propeliu a tornar-se campeão no ano seguinte, aplicando sobre seu adversário a mesma artimanha que lhe tirara o campeonato anterior. Senna sagrou-se campeão, mas era latente o conflito interno entre ganhar sorrateiramente e como, de fato, desejava. Perder sempre lhe desagradou e vencer era a coroação de seus esforços, mas o tricampeão refutava os atalhos.

A definição de sucesso é relativa e não é somente a vitória que a avaliza. Importa o caminho. Outros de menor notoriedade, disse o próprio campeão, marcaram-lhe mais a vida do que grandes como Alain Prost e Nigel Mansell. É o caso de Terry Fullerton, bem-sucedido de história própria, com quem Senna competia em seus tempos de kart, e por quem o piloto nutria respeito e admiração, além de tê-lo declarado o seu mais duro oponente.

Sucesso é, por definição, lograr êxito mas os critérios distam de uma pessoa para outra. Só se chega a um dado resultado pretendido aplicando-se. É preciso resiliência, persistência, valores firmes e, sobretudo, foco. O sucesso não é dependente do reconhecimento alheio.

Nobres e bem-sucedidos, penso eu, são aqueles que perseguem o caminho mais do que o próprio destino. A estes, como para Ayrton, o sucesso é uma consequência.



Thursday, February 09, 2012

O mau uso das redes sociais.

Tenho me incomodado bastante com o conteúdo que circula nas redes sociais. Na verdade, não me apoquentam tanto as temáticas, mas as posições comumente externadas.

Com o advento da internet e, principalmente, das redes sociais, a dinâmica da informação mudou. Outrora unidirecional e concentrada, o conhecimento é agora multidirecional e difuso. A rede mundial de computadores democratizou a informação, permitindo que os indivíduos interajam uns com os outros e, além de recipientes do saber, produzam-no concomitantemente.

Ainda que os efeitos daí advindos sejam majoritariamente positivos, há que se considerar os possíveis malgrados. Uma grande questão que identifico diz respeito à qualidade da informação. Tenho que uma parte significativa de todo conteúdo produzido é rasa, não está contextualizada, tampouco é acurada.  Na internet aborda-se uma infinidade de assuntos sem que se lhes exija o devido cuidado.

Religião e política são assuntos naturalmente controversos e não é somente a eles que me refiro. Falo sobretudo de generalidades que são abordadas com o que tomo por leviandade.

Incluo aí os recorrentes comentários que, imbuídos de superficialidade, são livres de qualquer relevância ou valor, tais quais os malfadados comentários sobre os mais novos ex-futuros famosos, das mais forçosas polêmicas novelísticas, dos mais recentes carnavais populares ou quaisquer retoques sobre os expoentes da ininterrupta política de pão e circo brasileira.

Mais ainda, aludo às randômicas frases de efeito que portam valores individuais e pessoais transvestidas de citações autorais nada fidedignas. Ou mesmo as insinuações que de tão óbvias não dignam o esforço da dissimulação. Os idiossincráticos protestos, desacompanhados de ação. As cruas, trágicas e nada edificantes mensagens e imagens. As incoerentes dicotomias que olvidam da multiplicidade de vieses. Os impropérios.

Ego inflado, crítica exacerbada, dentre outros possíveis motivos, me é difícil reconhecer neste mundo digital algum mote ao qual me filie. Primeiro por que acredito que a falta de assertividade e lógica na grande maioria das colocações desconstitui qualquer argumento remotamente válido levantado. Em segundo plano, igualmente relevante, porque grande parte do que vejo exposto e circulado é mera repetição de conteúdo alheio sem que, contudo, se processe a informação. Numa terceira instância, porque quase não é possível travar um debate inteligente sem involuntariamente aderir a um estereótipo, ou ser enquadrado em um.

É possível – e até provável – que eu não haja compreendido o real propósito das redes sociais. Julgo que seu objetivo é o de permitir, encorajar e promover interações humanas em um ambiente imaterial, virtual. Assim sendo e considerando que os intercâmbios entre pessoas nem sempre é nobre, ou mesmo sério, nada mais natural do que as despretensiosas infâmias e impropriedades. Talvez não devesse dirigir minha perplexidade ao mau uso das redes sociais, mas da deterioração do homem que, ocupado com pequenezas, esquece-se do enorme potencial que a rede de computadores põe a seu dispor.

Diante da minha inabilidade de registrar os meus aparentemente ininteligíveis comentários nestas redes sociais, disponho da única ação que me resta – limitar as interações àqueles que se propõem a integrar o ambiente de engajamento a que as redes sociais verdadeiramente servem.

Reconheço, no entanto, que esta postura é indesejável e menos inteligente do que parece. Esperto é reconhecer valor inclusive nas menores e mais diferentes expressões. Quanto mais amplo o espectro de informações a que se tem acesso, mais complexa a ideia que se pode formar e os valores que se aduzem.

Admito ter uma tendência a deferir como menor tudo aquilo que é diferente das minhas convicções ou que foge a minha compreensão e não é sem esforço que tento refutá-la, mas para aceitar as disparidades preciso compreendê-las e se, eventualmente, o emitente de uma opinião ou detentor de um valor oposto ao meu não consegue construir um raciocínio fundamentado é difícil aderir ao seu ponto de vista ou depreender daí qualquer valor.

Um grande problema das redes sociais é que, com a possibilidade de comunicação rápida, a informação tornou-se igualmente veloz e, por conseguinte, desacompanhada de estrutura e volume.

Me acalenta imaginar, entretanto, que esta fase de informação rasa é consequência da democratização da informação, outrora restrita a um limitado número de autointitulados eruditos. Com o tempo, espero, teremos um uso mais responsável e inteligente destes novos veículos da informação.