Com o advento da internet e, principalmente, das
redes sociais, a dinâmica da informação mudou. Outrora unidirecional e
concentrada, o conhecimento é agora multidirecional e difuso. A rede mundial de computadores democratizou a
informação, permitindo que os indivíduos interajam uns com os outros e, além de
recipientes do saber, produzam-no concomitantemente.
Ainda que os efeitos daí advindos sejam
majoritariamente positivos, há que se considerar os possíveis malgrados. Uma
grande questão que identifico diz respeito à qualidade da informação. Tenho que
uma parte significativa de todo conteúdo produzido é rasa, não está
contextualizada, tampouco é acurada. Na
internet aborda-se uma infinidade de assuntos sem que se lhes exija o devido
cuidado.
Religião e política são assuntos naturalmente
controversos e não é somente a eles que me refiro. Falo sobretudo de
generalidades que são abordadas com o que tomo por leviandade.
Incluo aí os recorrentes comentários que, imbuídos
de superficialidade, são livres de qualquer relevância ou valor, tais
quais os malfadados comentários sobre os mais novos ex-futuros famosos, das
mais forçosas polêmicas novelísticas, dos mais recentes carnavais populares ou
quaisquer retoques sobre os expoentes da ininterrupta política de pão e circo
brasileira.
Mais ainda, aludo às randômicas frases de efeito
que portam valores individuais e pessoais transvestidas de citações autorais
nada fidedignas. Ou mesmo as insinuações que de tão óbvias não dignam o esforço
da dissimulação. Os idiossincráticos protestos, desacompanhados de ação. As
cruas, trágicas e nada edificantes mensagens e imagens. As incoerentes
dicotomias que olvidam da multiplicidade de vieses. Os impropérios.
Ego inflado, crítica exacerbada, dentre outros
possíveis motivos, me é difícil reconhecer neste mundo digital algum mote ao
qual me filie. Primeiro por que acredito que a falta de assertividade e lógica
na grande maioria das colocações desconstitui qualquer argumento remotamente
válido levantado. Em segundo plano, igualmente relevante, porque grande parte
do que vejo exposto e circulado é mera repetição de conteúdo alheio sem que,
contudo, se processe a informação. Numa terceira instância, porque quase não é
possível travar um debate inteligente sem involuntariamente aderir a um
estereótipo, ou ser enquadrado em um.
É possível – e até provável – que eu não haja
compreendido o real propósito das redes sociais. Julgo que seu objetivo é o de
permitir, encorajar e promover interações humanas em um ambiente imaterial, virtual.
Assim sendo e considerando que os intercâmbios entre pessoas nem sempre é
nobre, ou mesmo sério, nada mais natural do que as despretensiosas infâmias e
impropriedades. Talvez não devesse dirigir minha perplexidade ao mau uso das
redes sociais, mas da deterioração do homem que, ocupado com pequenezas,
esquece-se do enorme potencial que a rede de computadores põe a seu dispor.
Diante da minha inabilidade de registrar os meus
aparentemente ininteligíveis comentários nestas redes sociais, disponho da única
ação que me resta – limitar as interações àqueles que se propõem a integrar o
ambiente de engajamento a que as redes sociais verdadeiramente servem.
Reconheço, no entanto, que esta postura é
indesejável e menos inteligente do que parece. Esperto é reconhecer valor
inclusive nas menores e mais diferentes expressões. Quanto mais amplo o
espectro de informações a que se tem acesso, mais complexa a ideia que se pode
formar e os valores que se aduzem.
Admito ter uma tendência a deferir como menor tudo
aquilo que é diferente das minhas convicções ou que foge a minha compreensão e
não é sem esforço que tento refutá-la, mas para aceitar as disparidades preciso
compreendê-las e se, eventualmente, o emitente de uma opinião ou detentor de um
valor oposto ao meu não consegue construir um raciocínio fundamentado é difícil
aderir ao seu ponto de vista ou depreender daí qualquer valor.
Um grande problema das redes sociais é que, com a
possibilidade de comunicação rápida, a informação tornou-se igualmente veloz e,
por conseguinte, desacompanhada de estrutura e volume.
Me acalenta imaginar, entretanto, que esta fase de
informação rasa é consequência da democratização da informação, outrora
restrita a um limitado número de autointitulados eruditos. Com o tempo, espero,
teremos um uso mais responsável e inteligente destes novos veículos da
informação.