Thursday, February 09, 2012

O mau uso das redes sociais.

Tenho me incomodado bastante com o conteúdo que circula nas redes sociais. Na verdade, não me apoquentam tanto as temáticas, mas as posições comumente externadas.

Com o advento da internet e, principalmente, das redes sociais, a dinâmica da informação mudou. Outrora unidirecional e concentrada, o conhecimento é agora multidirecional e difuso. A rede mundial de computadores democratizou a informação, permitindo que os indivíduos interajam uns com os outros e, além de recipientes do saber, produzam-no concomitantemente.

Ainda que os efeitos daí advindos sejam majoritariamente positivos, há que se considerar os possíveis malgrados. Uma grande questão que identifico diz respeito à qualidade da informação. Tenho que uma parte significativa de todo conteúdo produzido é rasa, não está contextualizada, tampouco é acurada.  Na internet aborda-se uma infinidade de assuntos sem que se lhes exija o devido cuidado.

Religião e política são assuntos naturalmente controversos e não é somente a eles que me refiro. Falo sobretudo de generalidades que são abordadas com o que tomo por leviandade.

Incluo aí os recorrentes comentários que, imbuídos de superficialidade, são livres de qualquer relevância ou valor, tais quais os malfadados comentários sobre os mais novos ex-futuros famosos, das mais forçosas polêmicas novelísticas, dos mais recentes carnavais populares ou quaisquer retoques sobre os expoentes da ininterrupta política de pão e circo brasileira.

Mais ainda, aludo às randômicas frases de efeito que portam valores individuais e pessoais transvestidas de citações autorais nada fidedignas. Ou mesmo as insinuações que de tão óbvias não dignam o esforço da dissimulação. Os idiossincráticos protestos, desacompanhados de ação. As cruas, trágicas e nada edificantes mensagens e imagens. As incoerentes dicotomias que olvidam da multiplicidade de vieses. Os impropérios.

Ego inflado, crítica exacerbada, dentre outros possíveis motivos, me é difícil reconhecer neste mundo digital algum mote ao qual me filie. Primeiro por que acredito que a falta de assertividade e lógica na grande maioria das colocações desconstitui qualquer argumento remotamente válido levantado. Em segundo plano, igualmente relevante, porque grande parte do que vejo exposto e circulado é mera repetição de conteúdo alheio sem que, contudo, se processe a informação. Numa terceira instância, porque quase não é possível travar um debate inteligente sem involuntariamente aderir a um estereótipo, ou ser enquadrado em um.

É possível – e até provável – que eu não haja compreendido o real propósito das redes sociais. Julgo que seu objetivo é o de permitir, encorajar e promover interações humanas em um ambiente imaterial, virtual. Assim sendo e considerando que os intercâmbios entre pessoas nem sempre é nobre, ou mesmo sério, nada mais natural do que as despretensiosas infâmias e impropriedades. Talvez não devesse dirigir minha perplexidade ao mau uso das redes sociais, mas da deterioração do homem que, ocupado com pequenezas, esquece-se do enorme potencial que a rede de computadores põe a seu dispor.

Diante da minha inabilidade de registrar os meus aparentemente ininteligíveis comentários nestas redes sociais, disponho da única ação que me resta – limitar as interações àqueles que se propõem a integrar o ambiente de engajamento a que as redes sociais verdadeiramente servem.

Reconheço, no entanto, que esta postura é indesejável e menos inteligente do que parece. Esperto é reconhecer valor inclusive nas menores e mais diferentes expressões. Quanto mais amplo o espectro de informações a que se tem acesso, mais complexa a ideia que se pode formar e os valores que se aduzem.

Admito ter uma tendência a deferir como menor tudo aquilo que é diferente das minhas convicções ou que foge a minha compreensão e não é sem esforço que tento refutá-la, mas para aceitar as disparidades preciso compreendê-las e se, eventualmente, o emitente de uma opinião ou detentor de um valor oposto ao meu não consegue construir um raciocínio fundamentado é difícil aderir ao seu ponto de vista ou depreender daí qualquer valor.

Um grande problema das redes sociais é que, com a possibilidade de comunicação rápida, a informação tornou-se igualmente veloz e, por conseguinte, desacompanhada de estrutura e volume.

Me acalenta imaginar, entretanto, que esta fase de informação rasa é consequência da democratização da informação, outrora restrita a um limitado número de autointitulados eruditos. Com o tempo, espero, teremos um uso mais responsável e inteligente destes novos veículos da informação.