Cumprindo
o que havia dito em minha última postagem, torno a escrever mas agora busco
algo além de um mero reforço do meu ego e tento apresentar neste espaço
temáticas mais relevantes.
Bem,
contratei já há algum tempo um serviço chamado Netflix que propõe trazer sem maiores embaraços aos seus clientes
filmes, documentários e afins de diferentes gêneros. A princípio, fui fisgado
pelos muitos programas infantis à disposição – tendo uma filha de 3 anos, seria
a sua fonte de diversão e a minha de tranquilidade em passeios e viagens. Ela,
entretanto, se interessou pouco e o relativamente baixo valor da assinatura
mensal (R$14,90) me permitiu não dar maior atenção ao assunto.
Gosto
de tecnologia, mas não me diria um aficionado. Sim, gosto dos MacBooks, iPhones
e quetais, mas muitas vezes os tenho sem utilizá-los ou extrair deles seu
máximo potencial. Contudo, não escrevo este texto para tecer comentários sobre
esta ou aquela tecnologia. O faço tão somente porque o tal do Netflix me proporcionou uma experiência
fantástica.
A
despeito da seleção, ao meu ver, pouco interessante de películas, me chamou a
atenção a possibilidade de assistir às TEDTalks.
Já assisti a alguns TEDx que, em suma,
tratam sobre assuntos diversos no âmbito dos negócios. Mal sabia o que ali me
aguardava.
Os
mencionados TEDTalks são, em verdade,
palestras ministradas por doutos e eminentes pensadores do nossos tempo. Estes
escritores, filósofos, políticos e outros discorrem para uma plateia de
igualmente seletos membros.
Não estou
seguro de que a seleção foi aleatória, mas findei por assistir em sequência,
três destes sábios que, de maneira distinta, discorreram sobre um tema comum.
Com
abordagens bastante particulares e distintas entre si, cuidaram do tema da
diversidade (étnica, cultura, social, econômica...) como jamais vi. Mostraram que a riqueza está em descartar
modelos pré-estabelecidos e construir suas próprias percepções e valores a
partir da experiência. Diziam-se eles mesmos mutuamente autores e vítimas de
impensáveis pré-conceitos e recomendavam rechaçar ativamente os juízos rasos e
rápidos. É possível ver estes vídeos online
no YouTube e, salvo engano, no
próprio endereço eletrônico da TED.
Tudo
o que vi me comoveu e enriqueceu profundamente. Contudo, foi algo dito
aparentemente fora do contexto que mais me tocou. O último dos três a que
assisti, um escritor nigeriano cujo nome olvido momentaneamente, falava por
meio de parábolas e histórias pessoais.
Em
dado momento, mencionou visivelmente emocionado, que sua família (então
composta de sua mãe e cinco filhos – ele incluso) foram vítimas da guerra civil
na Nigéria. Em dado momento resumiu a força sua mãe com uma de suas frases:
“Não há nada que um homem possa fazer, que eu não possa consertar”, diria ela
em um sarcasmo de inteligência insuperável.
O
que mais me moveu, no entanto, foi uma história contada acerca deste período
sombrio de sua vida. Em meio à guerra, deslocavam-se ele, irmãos e mãe entre os
diversos campos de refugiados instalados pelo país. Sua mãe, inglesa, buscava
uma forma de deixar o país e rumar para sua nação de origem. Deparava-se a todo
tempo, em meio ao êxodo, com guerrilheiros que em suas incursões buscavam
inclusive crianças para integrar o seu plantel. Um de seus irmãos, que à época
tinha apenas 9 anos, era alvo constante destes sujeitos. Era a força da sua mãe
que debelava as investidas e tentativas de levá-lo. Segundo ele, durante todo
este período, sua mãe não verteu sequer uma lágrima.
Quando,
enfim, conseguiram chegar ao aeroporto de onde partiriam para Inglaterra o
aspecto deplorável de sua família, resultado das condições a que haviam sido
submetidos, foram abordados por uma mulher que ali passava. Esta senhora lhes
indagou o motivo daquele deplorável estado. Tendo ouvido impassível ao que lhe contara
a senhora de vestes rotas, não teve outra reação senão assistir-lhes,
dando-lhes, as suas bagagens, roupas e demais conteúdos. Naquele momento, o palestrante
viu sua mãe chorar.
Anos
depois – contou – resolveu arguir a sua mãe o porquê de não ter se emocionado
diante de todo aquela moléstia, mas de ter se derramado em lágrimas diante da
boa ação daquela senhora. Ouviu, o que acredito ser das mais belas e
contundentes mensagens já ditas (cito em tradução livre): “Consegue-se proteger
o coração contra todos os males dos homens, mas o mesmo não é possível diante
de um ato de gentileza e bondade”.
Extraí
daí duas verdades que pretendo levar comigo para sempre: a primeira é de que, a
contrário do que parece conceber o senso comum, um simples gesto de bem tem
poder maior do que todo o mal que o antecedeu. A segunda é a de que qualquer
preconcepção é desinteligente. Houvesse a bendita mulher se atido aos valores
atuais que associam pobreza e indolência, ou pobreza e criminalidade, jamais
teria tido a oportunidade de conhecer a história da família do escritor e de
ter-lhes marcado a vida.
Falho
que sou, estas são lições com as quais procurarei verdadeiramente aprender.
Fazer parte de uma minoria dominante me faz mais algoz que vítima nesta
dinâmica social que rotula o desconhecido. É preciso enxergar a riqueza que
existe nas histórias alheias e no conhecimento. É necessário ver além daquilo
que estamos condicionados a olhar.