Tuesday, July 17, 2012

Pré-Conceito.


Cumprindo o que havia dito em minha última postagem, torno a escrever mas agora busco algo além de um mero reforço do meu ego e tento apresentar neste espaço temáticas mais relevantes.

Bem, contratei já há algum tempo um serviço chamado Netflix que propõe trazer sem maiores embaraços aos seus clientes filmes, documentários e afins de diferentes gêneros. A princípio, fui fisgado pelos muitos programas infantis à disposição – tendo uma filha de 3 anos, seria a sua fonte de diversão e a minha de tranquilidade em passeios e viagens. Ela, entretanto, se interessou pouco e o relativamente baixo valor da assinatura mensal (R$14,90) me permitiu não dar maior atenção ao assunto.

Gosto de tecnologia, mas não me diria um aficionado. Sim, gosto dos MacBooks, iPhones e quetais, mas muitas vezes os tenho sem utilizá-los ou extrair deles seu máximo potencial. Contudo, não escrevo este texto para tecer comentários sobre esta ou aquela tecnologia. O faço tão somente porque o tal do Netflix me proporcionou uma experiência fantástica.

A despeito da seleção, ao meu ver, pouco interessante de películas, me chamou a atenção a possibilidade de assistir às TEDTalks. Já assisti a alguns TEDx que, em suma, tratam sobre assuntos diversos no âmbito dos negócios. Mal sabia o que ali me aguardava.

Os mencionados TEDTalks são, em verdade, palestras ministradas por doutos e eminentes pensadores do nossos tempo. Estes escritores, filósofos, políticos e outros discorrem para uma plateia de igualmente seletos membros.

Não estou seguro de que a seleção foi aleatória, mas findei por assistir em sequência, três destes sábios que, de maneira distinta, discorreram sobre um tema comum.

Com abordagens bastante particulares e distintas entre si, cuidaram do tema da diversidade (étnica, cultura, social, econômica...) como jamais vi.  Mostraram que a riqueza está em descartar modelos pré-estabelecidos e construir suas próprias percepções e valores a partir da experiência. Diziam-se eles mesmos mutuamente autores e vítimas de impensáveis pré-conceitos e recomendavam rechaçar ativamente os juízos rasos e rápidos. É possível ver estes vídeos online no YouTube e, salvo engano, no próprio endereço eletrônico da TED.    

Tudo o que vi me comoveu e enriqueceu profundamente. Contudo, foi algo dito aparentemente fora do contexto que mais me tocou. O último dos três a que assisti, um escritor nigeriano cujo nome olvido momentaneamente, falava por meio de parábolas e histórias pessoais.

Em dado momento, mencionou visivelmente emocionado, que sua família (então composta de sua mãe e cinco filhos – ele incluso) foram vítimas da guerra civil na Nigéria. Em dado momento resumiu a força sua mãe com uma de suas frases: “Não há nada que um homem possa fazer, que eu não possa consertar”, diria ela em um sarcasmo de inteligência insuperável.

O que mais me moveu, no entanto, foi uma história contada acerca deste período sombrio de sua vida. Em meio à guerra, deslocavam-se ele, irmãos e mãe entre os diversos campos de refugiados instalados pelo país. Sua mãe, inglesa, buscava uma forma de deixar o país e rumar para sua nação de origem. Deparava-se a todo tempo, em meio ao êxodo, com guerrilheiros que em suas incursões buscavam inclusive crianças para integrar o seu plantel. Um de seus irmãos, que à época tinha apenas 9 anos, era alvo constante destes sujeitos. Era a força da sua mãe que debelava as investidas e tentativas de levá-lo. Segundo ele, durante todo este período, sua mãe não verteu sequer uma lágrima.

Quando, enfim, conseguiram chegar ao aeroporto de onde partiriam para Inglaterra o aspecto deplorável de sua família, resultado das condições a que haviam sido submetidos, foram abordados por uma mulher que ali passava. Esta senhora lhes indagou o motivo daquele deplorável estado. Tendo ouvido impassível ao que lhe contara a senhora de vestes rotas, não teve outra reação senão assistir-lhes, dando-lhes, as suas bagagens, roupas e demais conteúdos. Naquele momento, o palestrante viu sua mãe chorar.

Anos depois – contou – resolveu arguir a sua mãe o porquê de não ter se emocionado diante de todo aquela moléstia, mas de ter se derramado em lágrimas diante da boa ação daquela senhora. Ouviu, o que acredito ser das mais belas e contundentes mensagens já ditas (cito em tradução livre): “Consegue-se proteger o coração contra todos os males dos homens, mas o mesmo não é possível diante de um ato de gentileza e bondade”.

Extraí daí duas verdades que pretendo levar comigo para sempre: a primeira é de que, a contrário do que parece conceber o senso comum, um simples gesto de bem tem poder maior do que todo o mal que o antecedeu. A segunda é a de que qualquer preconcepção é desinteligente. Houvesse a bendita mulher se atido aos valores atuais que associam pobreza e indolência, ou pobreza e criminalidade, jamais teria tido a oportunidade de conhecer a história da família do escritor e de ter-lhes marcado a vida.

Falho que sou, estas são lições com as quais procurarei verdadeiramente aprender. Fazer parte de uma minoria dominante me faz mais algoz que vítima nesta dinâmica social que rotula o desconhecido. É preciso enxergar a riqueza que existe nas histórias alheias e no conhecimento. É necessário ver além daquilo que estamos condicionados a olhar.

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