Direi o óbvio. Tenho por fundamental o problema da educação no Brasil. Reconheço que até há pouco não havia me apercebido de quão afetados somos, como sociedade, pelos defeitos no processo educacional formal.
Não sou um homem de rotinas o que, inclusive, me atrapalha. Porém, tenho um regime matinal que se repete todos os dias. Evitarei os detalhes sórdidos, mas o fato é que aqueles poucos minutos de total reserva que muitos têm logo cedo, são consumidos lendo a grande maioria dos folhetins eletrônicos.
De posse do celular, tablet ou laptop invisto um bom tempo da manhã vendo as mais recentes publicações dos portais digitais e as próprias redes sociais que integro. Mais do que permitir o fácil acesso à informação, gosto desta natureza de veículo pois possibilitam a interação da notícia com os seus leitores e lá, ao fim de cada uma delas, ficam registrados os comentários daqueles que, como eu, as lêem.
Torno ao tema da educação por que me revolvem as tripas alguns dos comentários feitos nestas mídias. Não por que ocasionalmente não partilhe da opinião externada, mas - na grande maioria das vezes - pela sua completa falta de estrutura e subsídio.
Imagino, talvez ignorantemente, que as pessoas que acessam esses meios de comunicação integram a classe média e, portanto, têm acesso à educação de melhor qualidade. Contudo, até mesmo o meu conceito de educação de qualidade parece falho.
Me parece que as ações dos últimos governos, e assim menciono indistintamente os de direita e de esquerda, em vez de buscar substanciais melhoras na educação nacional, paulatinamente reduziram a qualidade da educação de forma geral, numa tentativa de nivelar o conhecimento por baixo.
Vejo subvertidos os conceitos mais básicos que permeiam a nossa vida. Noções sobre democracia, justiça, capitalismo, a função do Estado, propriedade privada e outros tantos sustentáculos da vida moderna parecem perdidos.
A vontade da maioria é ignorada subitamente quando em desacordo com interesses de um grupo restrito da sociedade; uma notícia de um suposto malfeito imediatamente redunda na demanda da sociedade por punição sem qualquer contemplação à justiça; pugna-se para que o Estado se torne mediador e interventor em toda e qualquer questão menor; o privado é compreendido como público e vice-versa; e muito mais.
Percebo como o meu desagrado pode ser atribuído ao desgosto com a essência egocêntrica humana e não à falta de educação. Talvez, em parte, até o seja. Mas acredito piamente que, sabedores e conhecedores de algumas noções básicas, poucos tornariam públicas visões tão conturbadas e se o fizessem, talvez fosse em prol da defesa do anarquismo e não de alguma estupidez infundada.
Cito esses comentários que vislumbro como icônicos da ignorância quase generalizada que nos aflige, mas evidentemente a inaptidão à leitura, a inabilidade matemática e outras tantas deficiências do brasileiro médio advêm do mesmo modelo falido de educação.
No entanto, defendo que se falham as mais simples noções dos sustentáculos da vida em sociedade, falha todo o resto. O Brasil adota uma estrutura de educação que não contempla a construção do conhecimento a partir da edificação do indivíduo. Ao contrário, atribui valor à repetição da informação e despreza o verdadeiro aprendizado e conhecimento.
Jamais fui um aluno exemplar. A despeito de ter frequentado sempre boas escolas (em uma escala que sempre me fugiu a compreensão), fui sempre um aluno medíocre. Contudo, atribuo isso a mais do que minha simples apatia.
Mesmo não tendo enfrentado alguns dos problemas basilares da educação nacional como a baixa qualidade e carência de professores, materiais escolares, infraestrutura, alimentação, transporte e outros, me deparei com um que sempre me pareceu de suma importância: o sistema educacional brasileiro é retrógrado e tolhe a capacidade intelectual dos estudantes.
Orientado para memorização e acúmulo de informação, o método educacional olvida a sua contextualização e sua função. Muitos alunos tem bom desempenho escolar, não pela sua capacidade de processar informação, mas de repeti-la e de se enquadrar. O inverso é igualmente verdadeiro. Mesmo no ensino superior a realidade se repete.
Quando estudante, sempre recusei os caminhos rápidos para responder questões. Não porque não os achasse válidos, mas porque tinha - e até hoje tenho - imensa dificuldade em memorizar algo que não compreendo.
Talvez por não receber grandes cobranças em casa, jamais dei maior importância às gradações que recebia nos exames, mas observo hoje que era exceção. Vejo como a inadequação de alguns os levou - mesmo que temporariamente - a se enxergar incapazes e incompetentes, quando na verdade simplesmente não se adequavam.
Estes indivíduos que são muitos, a maioria, muitas vezes tendem a perder a capacidade crítica e passam a replicar noções e conceitos sem as analisar e compreender. Dizem coisas vãs, sem conteúdo. Constroem seu trabalho e suas vidas sobre estas mesmas premissas e assim criam o Brasil do futuro.
São eles o retrato do Brasil do amanhã. É a sua falta de capacidade crítica e discernimento que produz uma casta política de tão má qualidade, que gera valores básicos invertidos e deturpados. Nada se questiona, nada se indaga, tudo se repete. Sem educação, mesmo nação rica, nos manteremos ignorantes e, a médio e longo prazo, seremos engolidos por potências menores cujos investimentos se concentram na construção de cidadãos melhores, questionadores.
O Brasil de hoje, deslumbrado com sua rápida ascensão a posto de potência, não terá qualquer relevância se não priorizar educação.
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