Friday, February 15, 2013

Educação?


Viajo bastante. Seja a trabalho ou lazer, estou constantemente em trânsito, geralmente à bordo de um avião de carreira. Ainda que muitas destas viagens sejam curtas, o que torna toda a experiência um tanto corrida, consigo estranhamente alcançar um estado de tranquilidade quando em vôo. Há algo sobre a vibração da aeronave, o suave passar das nuvens e a trilha-sonora escolhida que me fazem alcançar o nirvana. Exageros à parte, de fato gosto destas viagens aéreas. De alguma forma, durante estes trajetos consigo me desligar um pouco das questões mundanas e me pego elucubrando, filosofando. Há, contudo, situações em que este pequeno prazer é interrompido. Seja pelo desconforto das espremidas poltronas, pelo mau comportamento de um viajante próximo ou pelo choro persistente de uma criança. Ainda assim sempre acabo por sublimar o incômodo.

Neste exato momento, à bordo de um vôo que me leva de São Paulo a Aracaju, encontro enorme dificuldade em alcançar alguma paz. A apenas algumas poltronas de mim, está uma família - pai, mãe e filho. A criança, que não deve ter mais do que três anos, urra incessantemente. Ao que me consta, o comando dos comissários de bordo de que os pais lhe afivelem o cinto de segurança despertou um misto de ira, desespero e manha. Oscilando entre berros, uivos, ganhidos e murmúrios, o ruído provoca um mal-estar que se espalha por toda a cabine. Passageiros entreolham-se e buscam no vazio os responsáveis pela criança que não lhe interjeitam a conduta. Ao longo de quase dez minutos, o choro ecoa sem que esbocem qualquer reação maior os pais do menino. Ouve-se o quase sussurro de sua mãe tentando confortar-lhe oferecendo-lhe a chupeta, água, um boneco. Nada! O pai permanece silente e se limita a balbuciar onomatopéias que buscam calar o filho. Em momento algum, um dos dois reprovou-lhe a atitude; explicou-lhe os porquês do aparato de segurança; ou tentou dissuadir-lhe pelo diálogo. Parecem ignorar qualquer capacidade cognitiva sua.

Me pego contraindo os músculos, rangendo os dentes, enrubescendo a fronte e subitamente acometido por uma pontiaguda dor de cabeça. Indago se devo interceder. Mas como? Começo a imaginar uma ação em tom mais brando. Indagar-lhes se precisam de algo. Talvez possa distrair a criança de alguma forma, tomá-la em meu colo e embalá-la... Enfim, me ocorrem diversas idéias, mas acabo por não agir. Passo a pensar em agir mais rispidamente, revelando-lhes meu evidente desconforto, reprovando-lhes a inação e exigindo que façam cessar a lamúria. Nada faço. Me exaspero ainda mais e, acompanhando outros passageiros, me volto em sua direção e lanço olhares enviesados. Faço comentários perniciosos aos vizinhos. Cogito ser duro... Não me movo. 

Tenho uma filha igualmente jovem - apenas quatro anos. Com ela, este tipo de situação somente se esboçava quando ainda neném lhe incomodava a pressão nos ouvidos. Sempre precavidos, minha esposa e eu, aconselhados por sua pediatra, aguardávamos a decolagem e pouso, pontos críticos em que a variação de pressão incomoda mesmo os adultos, para oferecer-lhe uma mamadeira com água, suco ou leite.  A sucção, neste caso, alivia a dor. Mais que isso, por recomendação médica, minutos antes do vôo lhe oferecíamos um calmante natural, que lhe punha em sono profundo muitas vezes antes de alçarmos vôo. Quando não lhe pesava algum desconforto fisiológico, ou aqueles que acometem quase todas as crianças - fome, cólicas ou fraldas que necessitam troca -, minha filha eventualmente se lançava em reação idêntica a do garoto à bordo quando lhe tolhíamos a vontade de ficar livre nos assentos, correr pelo corredor central da aeronave, apertar botões ou coisa do gênero. Nestes casos, um endurecimento do tom, um olhar de reprovação ou mesmo um simples diálogo, sempre lhe devolveram a fleuma. Respeitando obviamente o seu desenvolvimento intelectual, sempre mantive como primordial a comunicação e a conversa. Jamais recorri às palmadas ou qualquer outro recurso físico com a minha filha. Não digo, todavia, que jamais o farei.

Estamos ainda em solo e nos preparamos para decolar. Absorto em pensamentos, percebo que o desafino se agrava e, por fim, uma angelical comissária de vôo aborda o casal. Ela mantém-se doce, mas é incisiva. Oferece-se para ajudá-los no que for preciso, ao mesmo tempo em que sutilmente solicita que lidem com a situação. Por alguns segundos, cessa o choro mas apenas para retornar ainda mais poderoso. Infringindo aquilo que mandam as normas, a aeromoça sugere e consente que a criança permaneça sem o cinto de segurança. Aos poucos, abranda-se a estridência, para dar lugar a um soluço contido e então o silêncio.

Me satisfaço com o acontecido já que voltou a imperar a calmaria. Não deixo de questionar, muito embora, se ceder aos humores de uma criança é a melhor forma de educar-lhe.

Me aplacam a enxaqueca e espasmos. É curioso como alguns de nossos processos mentais são capazes de nos afligir ou aliviar a dor, penso. Torno à contemplação: faltaria trato aos jovens pais, ou assim como eu me contive receoso da opinião social eles também o fizeram? Com as recentes discussões na mídia, provocadas pela iniciativa do Estado de banir do arsenal educacional doméstico os castigos físicos, por mais brandos que o sejam, adentraram na vida familiar não somente o Governo, mas a sociedade.

Jamais me abstive de impor regras à minha filha e de reprovar-lhe condutas inapropriadas, fosse diante de espectadores ou não, mas confesso que por vezes os atentos olhos alheios já me fizeram pensar duas vezes. Insisto que jamais usei de qualquer castigo físico com a minha filha, mas gosto de saber que tenho esse recurso à disposição em caso extremo. Acredito que a ampla discussão sobre o tema deve, sim, ocorrer (e toco neste ponto talvez tardiamente), trazendo à tona diferentes visões não somente sobre a questão da palmada, mas sobre a educação dos nossos filhos.

Imagino que a intenção legislativa, no que pertine aos direitos da criança e do adolescente, sejam a de coibir a violência. Infelizmente, há quem use de meios exacerbadamente fortes - não apenas físicos, mas psicológicos - na educaçao de sua progênie. Nada obstante, isto não pode justificar demover os pais de sua autoridade, responsabilidade e obrigação de nortear o futuro dos seus filhos. Em buscando conter excessos, não se pode promover a inércia. Há que se encontrar um meio-termo.

Não estou bem certo de que este seja um papel do Estado, tampouco relegaria tal função exclusivamente às instituições de ensino, mas certamente nos beneficiaríamos de um amplo e multidisciplinar debate, envolvendo sociólogos, antropólogos, psicólogos, médicos, pedagogos e a sociedade em geral, acerca de quais os limites dos papéis de pai e mãe.

Já nos aproximando do pouso, com os ouvidos acostumados apenas ao longínquo ronco dos motores do avião, me toma a ansiedade. Terei de conviver com outra sessão de urros semi-primais? Chamo a comissária de vôo e gentilmente lhe rogo: - Deixa o menino ficar sem o cinto! 

Com o filho dos outros não tem problema em ceder à manha. Ou tem?