Desconheço sua autoria, porém remeto a uma expressão cunhada já há algum tempo - as ditaduras das minorias. Talvez por receio da resposta e, quiçá, da eventual retaliação, o tema e consequentemente o vocábulo são timidamente usados. Eu, no entanto, ouso adentrá-lo.
A abordar este assunto, é preciso reconhecer que o Brasil é uma nação que promove e permite praticar incontáveis abusos contra diversos segmentos de sua sociedade. Por conseguinte, é razoável reconhecer que há um débito social para com aqueles acometidos pela ação deliberada ou omissão do Estado. No entanto, não se pode conceber que tal dívida obrigue o país e seus cidadãos a se render ao revanchismo.
Com o amadurecimento democrático do país e o decorrente fortalecimento das instituições estatais e civis, passam a surgir movimentos que singram e discursam livremente, porém ao mesmo tempo se evidencia paulatinamente, notadamente no seio de facções da sociedade que sofreram e ainda estão sujeitos a todo tipo de malgrado, um ranço incontido.
É natural e desejável, que se formem movimentos sociais que tragam atenção e tutelem os direitos destas minorias continuamente reprimidas. É igualmente salutar que os debates e, por vezes, embates envolvam as diferentes camadas da sociedade. No entanto, o que se enxerga em tempos recentes é a segregação e, no afã de fazer valer suas prerrogativas, o desforço destes movimentos de limitar, tolher e calar aqueles que vêem como seus opressores.
É salutar que estes movimentos realizem eventos de conscientização, criem instituições de proteção, busquem representação política e mais, tudo a fim de fazer integrar os seus valores à cultura nacional. Opino, no entanto, que não lhes é dado rivalizar todo e qualquer discurso que lhes teça crítica, sem sequer lhe inteligir o conteúdo.
É latente em nossa sociedade atual o sentimento de que não se deve tocar neste ou naquele tópico, sob pena de redundar em impropriedades. É a malfadada norma social do politicamente correto. Assim, não é possível contestar o sistema de cotas para negros nas universidades públicas sem ser taxado de racista. Não há como se tecer crítica sobre os despautérios ocorridos em uma parada gay sem ser rotulado de moralista ou preconceituoso. Não se discute os dogmas dos crentes evangélicos sem receber a pecha de intolerante. E assim em diante.
É inconteste e inegável que é preciso combater a discriminação e promover a tolerância e aceitação. Ativamente, inclusive. Isto não significa, todavia, que para tanto seja necessário destituir de capacidade analítica e voz quem quer que seja, não importa quão sensível seja a questão.
A construção de valores morais deve decorrer da dialética e não de mera imposição. O que devem compreender os ativistas que saltam a qualquer ponto de vista que lhes faça frente é que a solidez de seus argumentos e valores é necessariamente decorrente da construção lógica e convencimento.
Impende destacar que comportamento e pensamento não são imperiosamente coincidentes. Ao contrário: não raro, antepõe-se um ao outro. O caminho que vem sendo percorrido, acredito, poderá até resultar na mudança de comportamento, mesmo porque a coerção se propõe tão somente a este fim. Entretanto, não se obterá real câmbio no ideário da sociedade.
Há que se compreender que, conquanto para alguns é absoluto o fato de que não se pode julgar alguém pela sua cor de pele, opção sexual ou credo, para outros nem tanto. Impende manifestar, outrossim, que este preconceito é decorrente, mormente, da ignorância, mas também da repetição de traços sociais e diversos outros elementos. Mais que isto, é mister reconhecer que a democracia é a soma das vontades. É a heterogeneidade do ser e pensar que constitui a sociedade e senso de civilidade.
Cientes de que são credores da sociedade, alguns grupos minoritários promovem hoje verdadeira estereotipificação de quem lhes difere. Elegem à categoria de impronunciáveis certos temas e auspiciosamente apontam o dedo em riste a quem lhes ousa se opor.
Um destes tópicos é a criminalização da discriminação contra gays. Como é sabido por muitos, o deputado Marco Feliciano, presidente da Comissão de Direitos Humanos da Câmara dos Deputados Federais, virou ícone desta controvérsia.
Verdade seja dita, o assunto da descriminalização tem pouco a ver com o alvoroço que se criou em torno do deputado. É que o pastor evangélico citou a Bíblia dizendo serem amaldiçoados os negros; em outra ocasião, disse que a AIDS seria doença de gays; dentre outros infelizes comentários. A partir daí, diversos grupos e ativistas espalhados pelo país vêm exigindo a sua saída da Comissão. De fato, seus comentários perniciosos merecem repúdio e tal discurso é incompatível com o perfil de alguém que deveria participar deste comitê, menos ainda presidi-la.
Contudo, consegui detectar em outro de seus discursos algo que me pareceu razoável. No que concerne a descriminalização da discriminação contra gays, o deputado se opôs ao texto de lei que vinha sendo apresentado na Câmera. Ao que compreendi, o político não negou a valia da legislação, mas disse apenas que para que aquela norma fosse aprovada, um debate extenso sobre o que é discriminação e que tipo de condutas a configuram deveria haver anteriormente, sob pena da lei criar um regime de excessão, ultrapassando o limite do razoável.
Achei prudente a colocação do 'não tão nobre' deputado. Diante do regime do politicamente correto e revanchismo que me parece se erguer, é necessário configurar precisamente o que é discriminação, para que não se puna o livre discurso e convicções íntimas.
Em miúdos, o que quero dizer é que, por mais moralmente reprovável seja que alguém diga abertamente que não gosta de negros, gays ou religiosos, por exemplo, esta conduta não é passível de repreensão legal. Isto não pode ser confundido com discriminação.
Da mesma forma, não é preconceito pedir que um funcionário que atende clientes em uma loja cubra suas tatuagens e remova seus piercings. Discriminação seria não contratá-lo, mas impor condições e restrições - neste caso - não configura o ilícito.
Mais. Dizia eu outro dia que, na criação da minha filha, passo-lhe a mesma orientação sexual que recebi, ou seja, a de heterossexual. Isto, de per si, gerou um reboliço e prontamente fui chamado de preconceituoso.
Bem, eu obviamente ensino a minha filha os valores que acho essenciais no ser humano: respeito, compaixão, polidez, persistência, retidão, honestidade... Crio uma filha para o mundo, mas ofereço-lhe como referência o que eu próprio tenho como modelo. No entanto, diante das diferenças que se apresentam, explico-lhe e esclareço-lhe tudo, sem entrecortes. Ela já sabe, a exemplo, que algumas pessoas gostam de meninos e meninas, por exemplo. E não lhe disse que não podia, ou que era errado. É ela quem vai tomar a decisão dela ou assumir sua preferência, quando tiver idade para explorar sua sexualidade.
Ora, se nem os cientistas, ou mesmo os gays, concordam sobre se a opção sexual de um indivíduo é de origem genética, cultural ou uma simples opção, eu acho que tenho o direito a uma opinião, não? Em Roma antiga, a iniciação sexual dos nobres era sempre com um homem. Então poderia ser cultural. Mas há crianças com 2, 3 anos de idade que refutam o seu sexo de nascença. Então poderia ser genético. Enfim, a discussão é longuíssima e não há conclusão determinante.
O fato é que quando conto uma estória para minha filha, o final feliz tem um príncipe encantado e uma princesa, e não dois príncipes, ou duas princesas. Quando a minha filha me pergunta se o papai beija outro homem, respondo que não e digo que gosto de meninas. Não poderia ser diferente. Não tenho preconceito com negros ou gays, mas não posso fingir ser nem um, nem outro. Sou apenas eu.
Para mim é evidente que não poderia ser punido apenas por não ter as mesmas convicções que tem outras pessoas. No entanto, o que configura discriminação significa coisas diferentes para pessoas diferentes e, por isso mesmo, a discussão é essencial.
1 comment:
Olá Daniel, gostei de suas conclusões, continue postando no blog!
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