Monday, June 03, 2013

Complacência e cumplicidade.


É de uma grande desventura que questões maiores muitas vezes sejam reduzidas à pobres dicotomias em vez de ter esmiuçadas as suas múltiplas facetas.

O atual momento que vive o Brasil parece laurear esta superficialidade que, é preciso advertir, não se cinge à política ou meios de massa. Tampouco é de se desconsiderar que a informação atualmente circula com maior velocidade e, por conseguinte, não é tarefa simples superar os lugares comuns ou contemplar resumidamente as diversas questiúnculas que compõem um dado tema.

Contudo, é inegável que há uma polarização dos meios de comunicação, da informação e da audiência. É igualmente inconteste que, em busca de adesões, olvida-se deliberadamente o escrutínio da informação e o sopeso de suas variáveis. Há latente interesse no raso.

Digno de nota, ainda, a carência de homogeneidade suficiente para congregar opiniões e adesões sob uma ideologia. Existem, ao contrário, inconsistências e heterodoxias que, individualmente, expõem a parca profundidade com que se exploram os temas.

Não trato, excepcionalmente, da questão educacional nacional, atribuindo-lhe parte do malgrado que descrevo, a fim de não desviar de um primordial mote: o interesse orienta a abordagem, qualquer que seja.

A título de exemplo, ofereço o recente episódio envolvendo o programa social do governo federal – Bolsa Família – que terminou por levar milhares de beneficiários a sacar antecipadamente seus respectivos auxílios.

Nos ambientes virtuais, notadamente nas chamadas mídias sociais, pôde-se ver primariamente embates e antagonismos entre o que depreendo serem situacionistas e oposicionistas. Talvez sem a devida modéstia, suponho que mantenho em minha rede, contato com indivíduos críticos e inteligentes. Nada obstante, não encontrei conexão alguma entre os debates e o tópico. Meros louvores ou criticas ao Partido dos Trabalhadores não me soaram suficientes.

Mesmo percorrendo os informativos maiores – Estado de São Paulo, Folha de São Paulo, Jornal do Brasil, O Globo, Veja, IstoÉ, Época, Carta Capital e afins –, fui incapaz de enxergar qualquer verdadeiro debate que superasse a dicotomia: esquerda versus direita. Ainda que não me apraza tão superficial esterotipismo, os argumentos introduzidos não tocaram em pontos que me aparentaram cruciais.

A ocorrência de uma verdadeira debandada de pessoas a agências bancárias para sacar os recursos do Bolsa-Família constituiu verdadeiro experimento social. Um dos poucos, diga-se, sobre o qual se pode debruçar e estudar empiricamente. Os vieses sociológicos, econômicos, políticos são múltiplos.

Ao contrário, percorreram-se poucos elementos do fenômeno. Teceu-se crítica à sua existência (do Bolsa Família), mas é evidente que nem mesmo o mais imponderado dos líderes políticos ousaria findá-lo, tamanho é o capital político que representa.

Pouco se articulou sobre meios de aperfeiçoamento do programa a fim de que este verdadeiramente pudesse operar como instrumento de mudança socioeconômica. Nada se argumentou acerca da necessidade de criar contrapartidas mensuráveis e tangíveis à concessão do benefício. Menos ainda se discorreu sobre instrumentos de avaliação e controle do dispêndio destes valores, pelo governo e também pelas famílias que o recebem. 

Da mesma maneira, pouco se disse sobre a dependência hedionda que o garantismo sem mérito provoca. Sim, avaliou-se tal sujeição sob o prisma político, mas faço ora referência à dependência existencial. Muitas famílias, beneficiadas pelo programa, acomodam-se a tal ponto – quiçá descontentes com as minguadas probabilidades que o mercado lhes apresenta – que, ensimesmadas, retiram-se de toda e qualquer possibilidade de subsistência que não o malfadado programa social.

Curioso é que a pouca profundidade atende a ambos os situacionistas e oposicionistas. Um maior crivo sobre o programa denunciaria inconsistências insuportáveis. Ao mesmo tempo, poderia aclarar seus incidentais benefícios. Assim, quedam silenciados ambos, reduzindo seus debates ao riste de dedos que nada indicam senão o interesse na ignorância.

Conquanto o jogo político, em miúdos o notório “toma-lá-dá-cá”, é intrinsecamente dependente de suaves abordagens que, decodificados, pedem ou ofertam algo em troca do continuísmo; o mesmo não se poderia falar sobre a imprensa.

No entanto, é leviano e talvez até ingênuo debater liberdade de expressão, no que tange qualquer assunto concernente direta ou indiretamente à política, em um país onde as empresas públicas e de economia mista são propulsoras financeiras dos veículos de informação. No Brasil, o enlace entre Estado e iniciativa privada é insofismável.

Ainda que insubmissos à censura, a perversa ética do dinheiro e poder não consente à mídia aprofundar-se neste tópico, ou outro com alguma relevância, sem maiores danos colaterais. Poucas ousam. É o que explica tantos meios de imprensa terem sobrevivido, quase intactas, a um recente regime militar instaurado no país.

Muito se discorre sobre a liberdade de expressão, mas muito pouco se exibe da relação perniciosa entre imprensa e Governo, que  em suma atende ao mesmo princípio das negociações políticas.

A mídia rápida, e assim congrego veículos de publicação periódica, está quase integralmente comprometida. Alguns poucos blogs escapam a esta armadilha e, verdadeiramente, expõem fatos e argumentos com potencial de iluminar e educar, muito embora não consigam, muitas vezes, encontrar abrangência, tampouco equilíbrio e beirem o extremismo panfletário – de esquerda ou direita.

Tal cenário envolve-nos de tal forma que mesmo os buscadores de conhecimento, aqueles que lançam-se ao esforço de encontrar a informação e apontar inconsistências no subtexto do que parece ser uma verdade massificada, padecem de subsídio para tecerem qualquer tipo de crítica fundada ou mesmo de construir conhecimento consistente a respeito do agora.

Recipientes de informes parcos, a estes resta o inglorioso ardil de buscar na literatura mais densa, esta sim liberta, alimento para saciá-los. Quase sempre, contudo, isto termina por afastá-los do presente, afastando-os das imperiosidades e vicissitudes corriqueiros que constroem a história nacional. Cultos, estes findam fadados a um eterno retardo entre o fato e a leitura.

Nosso país padece de muitos males. Dois – sobretudo quando unidos –, nada obstante, parecem-me os de mais lesivo resultado: a complacência e cumplicidade. O brasileiro é complacente com tudo e, via de consequência, torna-se cúmplice das malfeitorias. Desde quando obtenha algum ganho, ou se livre de um achaque social ou econômico, prontifica-se a relevar e mesmo ocultar.

Isto vale em qualquer escala. Desde de os paupérrimos que contentam-se com a esmola que lhes presta o Governo, em troca do seu não-trabalho e direcionamento político; aos grandes veículos de informação, que velam idiossincrasias em benefício de quase-imunidade, dinheiro e poder. Mesmo as instituições, internamente ou entre si, são todas acometidas por este mal.

Isto vale especialmente para as atuais disputas políticas. Quando há ataques, estes são contidos, planejados e sempre têm o afã de obter algo em troca.

Da mesma forma que jaz latente a inexistência de ideologia partidária, evidencia-se, outrossim, a falta de paixões políticas. Em tempos outros, bradava-se aos ventos um ideário claro. Buscava-se rompimento. Hoje, converge-se para um centro que somente existe para acomodar as vontades dominantes e os chantageadores.

Não quero que transpareça que não vejo crítica na mídia nacional. Ao contrário, é impossível não vislumbrar os açoitamentos muitas vezes promovidos por alguns veículos. No entanto, insisto que – mesmo nestes casos – isto não revela o livre pensar e dizer, mas sim interesses dissimulados.

Tampouco quero fazer crer que o Governo age impiedosamente sem qualquer animosidade contrária. Digo tão somente que as composições sobrepujam-se à verdade, todo o tempo. Assevero mais. Que a mídia aí não é paciente. É, sim, agente.

A indignação, de seu turno, é o princípio da mudança. Mas sem informação, ou com dados confusos, parciais e rasos, é difícil alcançar este estágio. Se não conseguimos relacionar nem mesmo a nossa participação no insucesso do país e nos removemos cotidianamente do problema, como se lhe fôssemos alheios, mesmo quando cometemos, nós próprios, atos reprováveis social e juridicamente, nada poderemos avançar.

A fim de chegarmos a algum grau de indagação mais profunda, embate, contestação e, quem sabe, insurgência, é preciso transpor a linha dos interesses menores. É necessário mantermos visão de coletividade. É imperativo corrermos riscos.

Daí que acredito, e concluo, que a imprensa poderia desempenhar um papel fundamental neste momento histórico do Brasil. A promoção de parte da mudança que tanto nos é imprescindível, poderia derivar da exploração das verdades, e fugir dos conformismos. Habilitando-se independentemente, aderindo a este ou aquele lado, mas desvelando um ponto de vista inteiro e próprio, e enfrentando as repercussões, quaisquer que fossem, criar-se-ia sinergias de magnitude impensável.

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