É de uma grande desventura que questões maiores
muitas vezes sejam reduzidas à pobres dicotomias em vez de ter esmiuçadas as
suas múltiplas facetas.
O atual momento que vive o Brasil parece laurear
esta superficialidade que, é preciso advertir, não se cinge à política ou meios
de massa. Tampouco é de se desconsiderar que a informação atualmente circula
com maior velocidade e, por conseguinte, não é tarefa simples superar os
lugares comuns ou contemplar resumidamente as diversas questiúnculas que
compõem um dado tema.
Contudo, é inegável que há uma polarização dos
meios de comunicação, da informação e da audiência. É igualmente inconteste
que, em busca de adesões, olvida-se deliberadamente o escrutínio da informação
e o sopeso de suas variáveis. Há latente interesse no raso.
Digno de nota, ainda, a carência de homogeneidade
suficiente para congregar opiniões e adesões sob uma ideologia. Existem, ao
contrário, inconsistências e heterodoxias que, individualmente, expõem a parca
profundidade com que se exploram os temas.
Não trato, excepcionalmente, da questão educacional
nacional, atribuindo-lhe parte do malgrado que descrevo, a fim de não desviar
de um primordial mote: o interesse orienta a abordagem, qualquer que seja.
A título de exemplo, ofereço o recente episódio
envolvendo o programa social do governo federal – Bolsa Família – que terminou
por levar milhares de beneficiários a sacar antecipadamente seus respectivos
auxílios.
Nos ambientes virtuais, notadamente nas chamadas
mídias sociais, pôde-se ver primariamente embates e antagonismos entre o que depreendo
serem situacionistas e oposicionistas. Talvez sem a devida modéstia, suponho
que mantenho em minha rede, contato com indivíduos críticos e inteligentes.
Nada obstante, não encontrei conexão alguma entre os debates e o tópico. Meros
louvores ou criticas ao Partido dos Trabalhadores não me soaram suficientes.
Mesmo percorrendo os informativos maiores – Estado
de São Paulo, Folha de São Paulo, Jornal do Brasil, O Globo, Veja, IstoÉ,
Época, Carta Capital e afins –, fui incapaz de enxergar qualquer verdadeiro
debate que superasse a dicotomia: esquerda versus
direita. Ainda que não me apraza tão superficial esterotipismo, os argumentos
introduzidos não tocaram em pontos que me aparentaram cruciais.
A ocorrência de uma verdadeira debandada de pessoas
a agências bancárias para sacar os recursos do Bolsa-Família constituiu
verdadeiro experimento social. Um dos poucos, diga-se, sobre o qual se pode
debruçar e estudar empiricamente. Os vieses sociológicos, econômicos, políticos
são múltiplos.
Ao contrário, percorreram-se poucos elementos do
fenômeno. Teceu-se crítica à sua existência (do Bolsa Família), mas é evidente
que nem mesmo o mais imponderado dos líderes políticos ousaria findá-lo, tamanho é
o capital político que representa.
Pouco se articulou sobre meios de aperfeiçoamento do
programa a fim de que este verdadeiramente pudesse operar como instrumento de
mudança socioeconômica. Nada se argumentou acerca da necessidade de criar
contrapartidas mensuráveis e tangíveis à concessão do benefício. Menos ainda se
discorreu sobre instrumentos de avaliação e controle do dispêndio destes
valores, pelo governo e também pelas famílias que o recebem.
Da mesma maneira, pouco se disse sobre a
dependência hedionda que o garantismo sem mérito provoca. Sim, avaliou-se tal
sujeição sob o prisma político, mas faço ora referência à dependência existencial.
Muitas famílias, beneficiadas pelo programa, acomodam-se a tal ponto – quiçá descontentes
com as minguadas probabilidades que o mercado lhes apresenta – que,
ensimesmadas, retiram-se de toda e qualquer possibilidade de subsistência que
não o malfadado programa social.
Curioso é que a pouca profundidade atende a ambos
os situacionistas e oposicionistas. Um maior crivo sobre o programa denunciaria
inconsistências insuportáveis. Ao mesmo tempo, poderia aclarar seus
incidentais benefícios. Assim, quedam silenciados ambos, reduzindo seus debates
ao riste de dedos que nada indicam senão o interesse na ignorância.
Conquanto o jogo político, em miúdos o notório
“toma-lá-dá-cá”, é intrinsecamente dependente de suaves abordagens que,
decodificados, pedem ou ofertam algo em troca do continuísmo; o mesmo não se
poderia falar sobre a imprensa.
No entanto, é leviano e talvez até ingênuo debater
liberdade de expressão, no que tange qualquer assunto concernente direta ou indiretamente à política, em um país onde as empresas públicas e de economia mista
são propulsoras financeiras dos veículos de informação. No Brasil, o enlace entre Estado e iniciativa privada é insofismável.
Ainda que insubmissos à censura, a perversa ética
do dinheiro e poder não consente à mídia aprofundar-se neste tópico, ou outro
com alguma relevância, sem maiores danos colaterais. Poucas ousam. É o que
explica tantos meios de imprensa terem sobrevivido, quase intactas, a um
recente regime militar instaurado no país.
Muito se discorre sobre a liberdade de expressão,
mas muito pouco se exibe da relação perniciosa entre imprensa e Governo,
que em suma atende ao mesmo princípio
das negociações políticas.
A mídia rápida, e assim congrego veículos de
publicação periódica, está quase integralmente comprometida. Alguns poucos blogs escapam a esta armadilha e,
verdadeiramente, expõem fatos e argumentos com potencial de iluminar e educar,
muito embora não consigam, muitas vezes, encontrar abrangência, tampouco equilíbrio
e beirem o extremismo panfletário – de esquerda ou direita.
Tal cenário envolve-nos de tal forma que mesmo os
buscadores de conhecimento, aqueles que lançam-se ao esforço de encontrar a
informação e apontar inconsistências no subtexto do que parece ser uma verdade
massificada, padecem de subsídio para tecerem qualquer tipo de crítica fundada
ou mesmo de construir conhecimento consistente a respeito do agora.
Recipientes de informes parcos, a estes resta o inglorioso
ardil de buscar na literatura mais densa, esta sim liberta, alimento para saciá-los. Quase sempre,
contudo, isto termina por afastá-los do presente, afastando-os das
imperiosidades e vicissitudes corriqueiros que constroem a história nacional.
Cultos, estes findam fadados a um eterno retardo entre o fato e a leitura.
Nosso país padece de muitos males. Dois – sobretudo
quando unidos –, nada obstante, parecem-me os de mais lesivo resultado: a
complacência e cumplicidade. O brasileiro é complacente com tudo e, via de
consequência, torna-se cúmplice das malfeitorias. Desde quando obtenha algum
ganho, ou se livre de um achaque social ou econômico, prontifica-se a relevar e
mesmo ocultar.
Isto vale em qualquer escala. Desde de os
paupérrimos que contentam-se com a esmola que lhes presta o Governo, em troca
do seu não-trabalho e direcionamento político; aos grandes veículos de
informação, que velam idiossincrasias em benefício de quase-imunidade, dinheiro
e poder. Mesmo as instituições, internamente ou entre si, são todas acometidas
por este mal.
Isto vale especialmente para as atuais disputas
políticas. Quando há ataques, estes são contidos, planejados e sempre têm o afã de obter algo
em troca.
Da mesma forma que jaz latente a inexistência de
ideologia partidária, evidencia-se, outrossim, a falta de paixões políticas. Em
tempos outros, bradava-se aos ventos um ideário claro. Buscava-se rompimento. Hoje,
converge-se para um centro que somente existe para acomodar as vontades
dominantes e os chantageadores.
Não quero que transpareça que não vejo crítica
na mídia nacional. Ao contrário, é impossível não vislumbrar os açoitamentos
muitas vezes promovidos por alguns veículos. No entanto, insisto que – mesmo
nestes casos – isto não revela o livre pensar e dizer, mas sim interesses
dissimulados.
Tampouco quero fazer crer que o Governo age
impiedosamente sem qualquer animosidade contrária. Digo tão somente que as
composições sobrepujam-se à verdade, todo o tempo. Assevero mais. Que a mídia
aí não é paciente. É, sim, agente.
A indignação, de seu turno, é o princípio da
mudança. Mas sem informação, ou com dados confusos, parciais e rasos, é difícil
alcançar este estágio. Se não conseguimos relacionar nem mesmo a nossa
participação no insucesso do país e nos removemos cotidianamente do problema,
como se lhe fôssemos alheios, mesmo quando cometemos, nós próprios, atos
reprováveis social e juridicamente, nada poderemos avançar.
A fim de chegarmos a algum grau de indagação mais
profunda, embate, contestação e, quem sabe, insurgência, é preciso transpor a
linha dos interesses menores. É necessário mantermos visão de coletividade. É
imperativo corrermos riscos.
Daí que acredito, e concluo, que a imprensa poderia
desempenhar um papel fundamental neste momento histórico do Brasil. A promoção
de parte da mudança que tanto nos é imprescindível, poderia derivar da
exploração das verdades, e fugir dos conformismos. Habilitando-se
independentemente, aderindo a este ou aquele lado, mas desvelando um ponto de
vista inteiro e próprio, e enfrentando as repercussões, quaisquer que fossem,
criar-se-ia sinergias de magnitude impensável.
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