É inquestionável a existência de motivo tangível e
socialmente relevante para os protestos ocorridos nos últimos dias nas maiores
capitais do país. O transporte público é um dos elementos mais críticos nas
cidades brasileiras e na vida dos indivíduos, e consequentemente o impacto dos
seus custos é sensível aos orçamentos domésticos, especialmente em grandes
centros urbanos.
Afora o preço, a má qualidade dos serviços
prestados – maquinário sucateado, ineficiente e insuficiente, infraestrutura
ultrapassada, intermitência, falta de fiscalização e segurança, e afins – é
ponto nevrálgico.
É despiciendo alongado discurso acerca da
deficiência da infraestrutura nacional, principalmente no que tange ao
transporte público. Enxergo, contudo, que os piquetes, ainda que originalmente cingidos
ao pleito pela redução das tarifas e da má qualidade dos serviços prestados,
não se ergue somente nisto. Identifico, sobretudo no seio da classe média, um
ressentimento contido ao longo de anos de acossamento, que findou por
transmutar-se em tensão social.
A pirâmide socioeconômica do Brasil teve sempre um
fluxo invertido, com o Estado exercendo enormes pressões sobre a camada
intermediária da sociedade, a fim de atender as demandas das camadas mais
pobres e mais abastadas.
Durante todos os planos econômicos, programas
sociais, confiscos e fisiologismos, a classe trabalhadora manteve-se inerte. Agora,
quase trinta anos após o fim do regime militar é natural que, com o
fortalecimento das liberdades individuais, maior acesso e grandioso volume de
informação, esta classe reivindique para si os direitos que lhe foram negados
sistematicamente.
Os levantes que estão ocorrendo têm grande
potencial para tornarem-se marcos da ainda incipiente democracia brasileira. É
exatamente por isto que a sociedade deve acompanhar atenta e cuidadosamente a
evolução destes nascentes movimentos sociais. A tônica com que forem conduzidos
agora poderá ser determinante para o país que queremos ser em um futuro breve.
Por hora, a força destes movimentos não está na
vitória dos seus pleitos. Está, em primeiro plano, na instauração de um
ambiente que favoreça o debate livre. Em um segundo, na adesão massiva e
conseguinte conscientização acerca da causa. E, em último plano, na consecução
dos objetivos.
Há, no entanto, um longo caminho a percorrer e, para
que isto se dê, são necessárias algumas cautelas.
A organização – aqui tomada em seu sentido estrito
– destes movimentos precisa alcançar níveis de quase-excelência. É que a
opinião pública em nosso país costuma adotar pontos de vista conservadores e é
facilmente manipulada a tomar por baderna um movimento pacífico.
Daí que impera a necessidade de manter coesos os
seus membros e sob controle estas paradas, fugindo dos ímpetos revoltosos e
violentos que regularmente produzem.
Mais. É preciso criar meios de dar voz além das
demonstrações públicas e passeatas. Seja se valendo das tão expansivas mídias
sociais, da mídia convencional de massa, folhetins e afins. Isto é o que permitirá continuidade aos movimentos e criará o ambiente para discurso, debate e formatação de idéias.
Igualmente, a politização das causas, entendo, posa
risco para o êxito destes debates. Isto porque a adesão de entes e partidos
políticos pode reduzir à pequenezas discussões de importância maior, e ganhar
resistência desmerecida. É que uso
político destes movimentos pode redundar em perda de suporte pela sociedade,
cujo apoio é vital. Ou ainda, transformar-se em indesejável instrumento para formação de curral eleitoral. Em um instante histórico em que a política nacional
e os partidos carecem de ideologia própria, não é difícil vislumbrar partidos
alvoroçando-se em figurar como verdadeiros patronos da causa.
Há que se exaurir as temáticas e as óticas que
subsidiam os pleitos e analisar as suas razoabilidades e plausibilidades,
permitindo aos movimentos ostentar uma mensagem uníssona e factível. Não é
impensável que o afã revolucionário se sobreponha às reais possibilidades de
mudança e, como consequência, alcance extremismos tão indesejáveis quanto as
questões que posam como objeto de crítica.
O apoio da sociedade é essencial. É indispensável,
sem embargo, a manutenção de diálogo com o Estado, e uma relação aberta com a
imprensa. O rechaço destas instituições democráticas justificará a hostilização
do movimento ou propulsionará a sua radicalização – ambos efeitos indesejáveis.
Considerando esses cuidados, uma breve e
superficial observação da má condução destes protestos aponta para um caminho
comprometido.
A composição socioeconômica destas aglomerações não
reflete aquela do país como um todo. Portanto, se não há representatividade,
perde-se a legitimidade. Justamente por esta razão que o debate e a adesão em
massa são imperiosos.
Além disto, há uma latente degeneração do debate, decomposição
da causa e perda de foco. A reclamação generalizada não é construtiva e a
completa destituição de poder dos atuais governantes não deve ser de interesse
nacional. Para isto, há o voto. Creio que, da maneira tal como estão,
redundarão em reprovação pela própria sociedade.
Já há ativa participação de partidos políticos. A sua simples participação não deteriora a causa, mas não tardará para que esta se faça de bandeira em benefício deste ou daquele indivíduo ou grupo político.
O que se deve buscar por intermédio destes protestos, sugiro, é a verdadeira integração
da sociedade ao sistema político nacional. Se de fato há o interesse em
provocar mudança, que isto se processe institucionalmente, com ativa presença
de diferentes setores da democracia brasileira.
Ao que consta, os movimentos ganharam corpo e
atenção mais pela violência com que foram recebidos (ou que praticaram, em
resposta ou por puro descontrole e desorganização) do que propriamente pela
causa.
É possível o meu engano, porém antevejo um esvaziamento destas paradas
pela simples falta de oposição dos governos. Se dono de alguma esperteza, o Estado precisa tão somente ausentar-se do embate para que se sinta, como sempre foi, a imensa dificuldade de promover mudança.
Contrariamente a esta previsão determinista, a
proximidade de eventos de escala nacional e internacional, tais quais a Copa
das Confederações, a Copa Mundial e as Olimpíadas pode proporcionar um instante
único para que as pressões da sociedade, ou parcelas dela, se engrandeçam e
ganhem coro Brasil e mundo à fora.
Se assim o for, os movimentos e seus membros
precisam estar unidos em torno de demandas claras, negociá-las, acompanhar e
cobrar a implementação de medidas e afins. É preciso superar este estágio
pueril de contestação. Há é que se constatar os problemas, negociar soluções,
adotar resoluções e fazê-las ser cumpridas.
É possível mudar o Brasil. Mas não acredito que isto acontecerá sob paus e pedras. Ao contrário, será preciso usar de inteligência.
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