Monday, October 21, 2013

Movimentos sociais.

Sim, como previsto, os protestos que se espalharam em meados deste ano minguaram. Não havia mesmo interesse de que continuassem, tampouco se lhes relegou suficiente valor social, ao menos não nos canais convencionais de comunicação. Prova disto é que não se cunhou, ou mesmo intentou cunhar, uma expressão una que congregasse tais eventos sob uma classificação. Estes eventos, salvo erro, estão fadados ao esquecimento.

Isto não quer, contudo, dizer que não possam advir movimentos igualmente ou ainda mais fortes que ganhem alguma relevância em breve futuro. Isto não somente é possível, como provável. Insisto, no entanto, que sem um sedimento ideológico e organizacional mais firme, estes levantes se manterão na obscuridade.

Protestar "por direitos" ou ainda "contra tudo isto que está aí", motivações que ecoaram por todo Brasil, não é suficiente para obter massiva aderência social. Os indivíduos, mesmo os brasileiros, são capazes de aderir a uma determinada causa, mas para isto precisam compreendê-la e então identificar-se com ela.

O emburrecimento das mídias sociais, todavia, é detrimental ao erguimento de algo concreto e sério, com verdadeiro fito de mudança - concluo ser este o ímpeto. Apesar de ser tido como um ambiente de livre pensar e debater, os valores que aí se constroem costumam ser impenetráveis ao debate e crítica, mesmo aquelas que se dirigem à construção do tema e de um determinado argumento. A dogmática dos valores adotados é equiparável à de uma instituição religiosa radical, de sorte que não se lhes pode contrapor sem ser prontamente tachado de qualquer nome que soe ruim, sem maiores elaborações.

Estas construções de valor e ideologia, mesmo quando radicais, até seriam aceitáveis e basilares para um eventual movimento desde que conjuntamente compusessem um sistema que fizesse sentido, mas contrastadas entre si, as posições são insustentáveis e de impossível convivência. Não há, em grande número das vezes, qualquer compatibilidade entre as idéias lançadas como bandeiras.

Os protestantes que ainda remanescem esquecem-se completamente que sem o apoio maciço dos brasileiros serão levados ao ostracismo, não por força da lei, mas pela rejeição que enfrentarão daquela mesma sociedade que se inclinam a proteger. Perdem legitimidade. A sua parca experiência e informação limitada transparecem à sociedade, que lhes negam o apoio necessário. Somente com o engajamento da sociedade é que se vai promover alguma mudança e não a despeito dela.

Há uma verdadeira desconexão entre estes movimentos e a sociedade. Os adeptos às teorias conspiratórias podem apontar uma participação decisiva da mídia e da supressão promovida pelo Estado neste resultado. No entanto, enxergo mais falta própria do que do establishment

De fato a mídia nacional é conservadora e pouco afeita aos movimentos populares. É bem verdade, ainda, que os meios de comunicação detêm imenso poder de influência e convencimento. O Estado, por sua vez, tem se valido da força e lançado mão do aparato policial para conter os levantes. A recusa das lideranças do movimento de extirpar a violência e depredação do patrimônio público e privado como uns de seus instrumentos pesa mais em seu desfavor do que qualquer outro obstáculo. 

A Imprensa cumpre sua função. O que se reclama que seja noticiado? O mote do movimento? Não há. Quando há, tende ao anarquismo. Quer que se aponte os excessos da polícia? Isto se faz, mas apaga-se ante as imagens dos excessos dos manifestantes. Sim, a polícia brasileira é corrupta, mas é a que temos. O que há de relevante?!

O Estado cumpre seu papel de por ordem. Não poderia ter outra atitude senão a de conter os protestos, especialmente quando seus membros munem-se de coquetéis molotov, paus, pedras e mascaram-se. Ao bem da verdade, fosse este um governo de direita, a repressão teria se mostrado ainda mais veemente. Explico: diante de um governo dito de esquerda, especialmente na América do Sul, há o receio de parte da classe média de que não se respeitem os sustentáculos da democracia e de que se suprimam as liberdades individuais. O mesmo não ocorreria face a um governo direitista.

A sociedade brasileira é há muito acometida por dois sentimentos dominantes. Primeiramente, uma sensação generalizada de insatisfação. Em segundo lugar, sente-se impotência. Diante disto, a necessidade de mudança impera e isto somente se opera com ação. 

Esta parte da mensagem os movimentos compreenderam: é preciso agir. O protesto é, sim, uma forma de ação. Mas é apenas parte do que se pode fazer. Protestar por generalidade, que é o que se está fazendo, não atinge o objetivo primário que é o de promover a mudança. Uma outra parte substancialmente necessária está sendo olvidada. Que é o debate e a criação de um libelo, de uma ideologia firme e com a qual a população se identifique e compreenda, e que possa se disseminar. Por si só, este compartilhamento ideológico é modificador e produz efeitos práticos, um dos quais é a reunião de uma sociedade em torno de objetivos comuns.


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