Thursday, October 15, 2015

Bienal do Livro de Itabaiana, Sergipe.

É bastante comum encontrarmos explicações naturalistas para quase todo comportamento. A explanação geralmente remonta às necessidades primordiais dos nossos ancestrais. Penso que pode-se erguer semelhante argumento para fundamentar os estereótipos e pré-concepções.

Acredito que somente algum instinto primitivo de nos protegermos do desconhecido, instilado em nosso código genético há milhares de anos, pode explicar porquê em nossa contemporaneidade insistimos em manter valores que antecipam uma realidade ainda desconhecida.

Digo isto diante da conclusão de que não se presta a nada, senão a um desserviço à humanidade, a manutenção de ressalvas infundadas, não decorrentes de experiência. Não alcanço, contudo, esta arrematação por expontânea iluminação, mas por experiência reiterada.

Em Sergipe, poucos municípios ostentam identidade própria. Em sua maioria, adotam um simulacro daquilo que creem ser o da capital. Há, nada obstante, uma notória exceção: Itabaiana. Em nada esta cidade ou seus cidadãos emulam Aracaju. Fazem, ao contrário, esforço para dela distar, numa maneira de distinguirem-se. E o fazem com sucesso.

Este deliberado destacamento, contudo, resulta na percepção enviesada do que é este povo e sua cidade. Diz-se que aquele natural de Itabaiana é circunspecto, ensimesmado. Fala-se ainda que são demasiado espertos, vernáculo aqui aplicado pejorativamente. Opina-se, outrossim, que são negociadores exacerbadamente duros.

Em um mundo acostumado a apenas criticar e achacar, acho justo contrabalancear. Sim, o itabaianense é reservado e até mesmo protetivo, não somente dos seus familiares e amigos, mas dos seus conterrâneos. Mas apenas até que se lhe conquiste a confiança. Sim, confiança, algo hoje exigido sem qualquer mostra de boa-fé ou boa-vontade de quem se lhe demanda.

Sim, o itabaianense é safo e rápido, mas alguém que reclama disso diz mais sobre si que sobre o outro, não é mesmo? Afinal, vivemos inseridos em um mundo capitalista - o queiramos, ou não - em que a capacidade de articulação negocial é fundamental.

Itabaiana é uma cidade repleta de homens e mulheres de bem. Alguns, inclusive, de grande sucesso empresarial. Em vez de ressaltar-se os feitos destes, se lhes reputam o êxito a idiossincrasias e condutas apequenadas. Olvida-se, talvez propositadamente, que muitos destes exitosos senhores e senhoras iniciaram as suas vidas muito cedo, nas lavouras e feiras da região. Desde muito jovens, viram-se compelidos a investir a maior parte de seu tempo no pequeno negócio familiar. Aprenderam a negociar agilmente por exigência do próprio ofício. A ética daqueles que fortuitamente conheci é daquelas que já não mais se vê, em que o compromisso é bastante e dispensa formalidades.

Afora a faceta empresarial, comumente em destaque, recém descobri uma outra. Assim como a quase totalidade dos municípios brasileiros, a cidade de Itabaiana não tem o seu desenvolvimento planejado. Cresce, portanto, organica e desordenadamente.

Esse crescimento pode ser facilmente traduzido pela quantidade de negócios que afloram na cidade, bem como pelo influxo de visitantes de outros estados, da capital e de regiões circunvizinhas. Chama a atenção, no entanto, alguns bolsões de prosperidade da cidade.

Avenidas e ruas amplas, iluminadas, bem mantidas e sinalizadas, acompanhadas de calçadas largas, ciclovias. Praças, canteiros centrais ajardinados e objetos de arte. Uma vegetação ainda tímida que tenta vencer o clima agreste.

Com parcos recursos, a Prefeitura municipal envida desmedidos esforços para contribuir com esta realidade, mas não é ela a responsável. Um filho da terra, por meio da sua empresa de desenvolvimento urbano, é a quem se pode reputar tal avanço.

Edson Passos, à frente de sua empresa Ethos, é quem vislumbrou, executou e continua a expandir esta proeza. Ao contrário do que se pode pensar, não o menciono aqui para novamente destacar seus brios empresariais. O faço para destacar a importância do seu mecenato e do valor que ele reputa à cultura, esta a nova dimensão que começa a produzir novos contornos para a cidade e seus habitantes.

Desde os tempos mais pregressos, na Grécia antiga e no império Romano, alguns membros da sociedade compreenderam que era preciso transcender a mera sobrevivência e viver. Para isto, era preciso dar sentido à vida e o instrumental compreendia os esportes e a arte.

Os mecenas, como eram chamados àquele tempo, tornavam-se patronos da arte e do esporte, promovendo artistas locais e eventos desportivos, para enriquecer a vida dos cidadãos.

Edson, hoje um caro amigo por quem não escondo o carinho, é um mecenas contemporâneo. Este grande urbanista compreendeu que, em vez de enclausurar os seus empreendimentos, devia colocá-los em meio a uma malha de equipamentos urbanos e, por consequência, integrar as pessoas e oferecer-lhes possibilidades. Lá as pessoas caminham, fazem sua ginástica, conversam.

Mas ele e sua empresa foram além. Em qualquer dado dia 14, de qualquer mês do ano, Edson e a Ethos promovem um evento cultural de grande magnitude. Reúnem artistas locais na praça pública que eles próprios edificaram, em um movimento que reune centenas de pessoas que divertem-se e adquirem cultura sem que isto lhes custe um único centavo.

Ontem, como que no clímax do trabalho que desenvolvem há quase uma década, ocorreu em sua cidade a Bienal do Livro, coincidente com o evento que tradicionalmente promove. Novamente, centenas de pessoas reuniram-se. Gerações inteiras de famílias, dos mais púberes aos mais anciãos, reunidas em torno de atrações surpreendentes. No palco montado, e no entorno, diversão abundante.

O evento foi de tal forma magistral que mereceu cobertura dos maiores veículos de comunicação do estado e contou com presença de ilustres da terra. Como a tônica do evento não é política, estas excelências não receberam a pompa e circunstância a que estão acostumados, tampouco o assédio.

Ao fim desta experiência, o que enxerguei foi o resultado do trabalho de homens forjados pela vida que, a despeito da dureza do seu passado ou presente, de suas humildes origens, compreendem o imensurável valor que tem a cultura e o senso de comunidade.

Tendo sido convidado pelo idealizador e anfitrião do evento, por assim dizer, e tendo compartilhado a companhia da sua dulcíssima esposa e dos seus digníssimos pais, posso não ser o mais isento dos espectadores. Ainda assim, me declaro despido de qualquer pré-conceito que um dia posso ter tido. Não sou filho da terra, mas ontem me senti parte dela.


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